Esta história tem roteiro original e foi escrita para os nichos literários Hard Sci-Fi (Ficção Científica fundamentada), Romance Histórico/Épico e Romantasy (Romances maduros de fantasia/ficção). Nela há descrições de violência e conotação sexual. Não contém cenas explícitas, mas é recomendável para público adulto.


Capítulo 22
Ecos do passado
Imóvel e de costas para o perigo, Ed sentiu que alguém se aproximava furtivamente a passos largos; girou o tronco no tempo exato para se esquivar de um golpe de blackjack que buscava esmagar seu crânio.
— “L’espèce de rosbif d’anglais est arrivé avant nous, ce jean-foutre!”
Gritou o líder, um espanto latente em seu francês legítimo, logo seguido por uma ordem que destilava um ódio puro, xenofóbico e visceral:
— “Croyez-vous que nous ignorions que vous étiez un bâtard d’espion ? La clé est à nous, bordel de merde! Et le manuel que vous avez volé à son propriétaire légitime? Rendez-le-nous ou je vous saigne comme un porc!”
Ed não respondeu com palavras. O combate corpo a corpo era sua especialidade, uma ciência de quebrar costelas, dentes e queixos que ele executava com precisão quase artística. No entanto, o uso de lâminas e armas de fogo nesses confrontos o irritava profundamente; eram ferramentas de covardes que não suportavam o peso do próprio punho.
Aproveitando o ricochete do ataque do qual acabara de se safar, o agente agiu com um movimento fluido e desarmou o oponente que empunhava o porrete. Uma joelhada certeira no abdômen fez o adversário perder o fôlego e o equilíbrio; na sequência, desferiu uma cabeçada violenta e seca no nariz do homem.
O estalo do osso se partindo foi seguido por uma torrente de sangue que banhou o rosto e a camisa do francês.
Segurando o corpo atordoado do inimigo e transformando-o em um escudo humano, ele se protegeu do impacto do tiro disparado pelo segundo espião. Com agilidade felina, Ed empurrou o escudo de cara amassada — agora também baleado — contra o atirador, ganhando o tempo necessário para recuperar o porrete caído.
Arremessou-o como um projétil mortal. O objeto atingiu em cheio a têmpora do homem que tentava, freneticamente, recarregar a pistola de pederneira. Ossos estalaram. Sangue e pólvora se misturaram no ar. Inconsciência imediata.
Restava apenas o líder. O espião iniciou a investida esticando a lâmina em desafio, buscando cercá-lo para reposicioná-lo, estrategicamente, de costas para o comparsa de nariz quebrado; este último tateava a penumbra, tentando encontrar a própria arma que caíra da cintura ao servir de aríete humano.
Ed não lhe daria essa chance. Investiu contra o comandante francês de forma rápida e brutal. Usando a destreza superior de seu treinamento militar, neutralizou o punhal com o braço esquerdo.
Em um soco ascendente, o punho direito deslocou o maxilar do espião, seguido por um empurrão violento que o arremessou contra a velha impressora. O som de carne e ossos chocando-se contra as ferragens da máquina ecoou pelo porão.
O perigo, porém, ainda respirava. O francês baleado e com o rosto deformado reuniu suas últimas forças. Em um ato desesperado de lealdade cega a seu general sádico, ergueu o cano e disparou sua arma de tiro único.
A fumaça escura da pólvora negra misturou-se ao ar pesado no instante em que o projétil atingiu o cinto do agente sob a capa. O chumbo colidiu contra o invólucro de gálio do Ressonador Temporal em um tilintar metálico e seco. O dispositivo blindado ricocheteou o impacto, mas o pulsar característico de sua galiometria silenciou-se imediatamente.
Sem olhar para trás, Ed desfechou a pesada folha de ferro, trancando os espiões no submundo de Manchester e desaparecendo na névoa densa da manhã.
Ele subiu correndo os degraus de volta ao térreo com uma dúvida atroz: se aquele tiro não tivesse acertado o ressonador, teria se alojado em seu abdômen. Uma bala pequena, mas com potencial para incapacitá-lo de fugir e retornar à estalagem; dependendo da gravidade da lesão, poderia até matá-lo em curto prazo.
O que seria pior? Ser baleado ou enfrentar a iminência de ficar aprisionado no passado? Com o dispositivo silenciado, morrer seria o menor dos problemas… O que acontece quando o homem que controla o tempo descobre que é escravo dele?
Já fora do porão, mas ainda dentro da cobertura do depósito, sob a luz pálida da manhã de Manchester, Ed fez uma avaliação rápida e gélida dos danos.
O projétil de chumbo havia sido cirúrgico: um dos sensores luminosos — a porção fotônica frágil que acionava o comunicador — estava estilhaçado, expondo uma matriz quântica caótica de spins desalinhados.
Com o pulso acelerado pela urgência, ele tentou forçar uma indução de fase manual para reativar o protocolo de fusão galiônica. Na engenharia de sobrevivência, aquilo era o equivalente a fazer um motor pegar no tranco através de uma ligação direta.
— “Aletheia... Responda, Aletheia! Está me ouvindo? Câmbio!”
O retorno foi o silêncio de uma estática absoluta. O comunicador continuava mudo.
— “Aletheia!!!” — insistiu ele, engolido pelo ruído distante da cidade industrial.
Antes de ocultar o aparelho sob as vestes, percebeu que o Cronovítreo acoplado ao seu rosto permanecia ativo. O fluxo de dados táticos estabilizou seus batimentos. Estava tão focado no combate que não havia notado o funcionamento da viseira tecnológica; um detalhe vital que aliviou a tensão em seu peito, clareando sua mente para os próximos passos.
Se o tiro tivesse sido fatal, o Ressonador entraria em ação automaticamente dez segundos após o coração do agente parar de bater no passado, transportando-o com todo o aparato tecnológico de volta ao ponto de origem. No futuro, ele seria ressuscitado.
Uma vez recuperado, ele poderia saltar para o momento oportuno anterior ao confronto, reescrevendo o desfecho para retornar ao hotel ileso sob a ótica de Livy.
Isso explicava a dinâmica da frase enigmática que sussurrara a ela: “Nem a morte me impedirá de voltar”. Toda aquela instrução sobre fugir para Liverpool e embarcar em um navio era, de fato, apenas uma estratégia para blindar a jovem de informações incompreensíveis. Ocultar a verdade quântica era a única garantia de sobrevivência dela.
O dano na carcaça de gálio não era crítico, mas ameaçava o cálculo preciso do vetor temporal. Agora, Ed não corria apenas contra o relógio, mas contra a própria inércia do destino. Precisava calibrar o dispositivo ou encontrar uma rota de ativação manual antes da meia-noite.
O trajeto de volta foi povoado por sombras e conjecturas. Se os franceses haviam antecipado a abordagem, significava que descobriram a farsa do falso mensageiro; consequentemente, poderiam rastrear seu paradeiro.
O medo — um sentimento que raramente se permitia — o asfixiava: e se Livy estivesse morta? Ou raptada para servir de moeda de troca? Seria o espectro da execução voltando a cobrar a dívida após vinte e quatro horas de trégua?
O Comandante já tivera acompanhantes em outras missões, mulheres aleatórias que serviam a propósitos carnais passageiros e seguiam seus caminhos, porém, aquela órfã de Rochdale havia tocado sua alma de forma irreversível.
Ao alcançar a porta do quarto, ele executou a sequência combinada: três batidas cadenciadas... pausa... duas batidas rápidas... silêncio.
— Livy!… Cheguei!… Abra a porta!
Nada. O silêncio absoluto era um péssimo presságio. “Os franceses chegaram antes e a levaram” — o pensamento acelerou seu pulso e paralisou sua alma.
Ed bateu novamente, com o desespero de quem teme o pior… Até que ouviu o ruído da chave na fechadura e o seu reconfortante click duplo.
Livy surgiu com as feições suaves e amassadas pelo sono, desculpando-se enquanto bocejava e esfregava os olhos com uma preguiça adorável. Ed deu-se conta de que aquela jovem ocupara um espaço imenso e imprevisto em sua vida; despertara nele uma preocupação que jamais sentira ou se permitira experimentar.
— Não se desculpe… Que bom que você está bem.
Ele a envolveu em um abraço esmagador, tentando decifrar o sentimento inédito que aflorava em seu peito. A jovem enlaçou-se inteiramente nele, prendendo-o com braços e pernas. O agente buscou seus lábios em um beijo profundo enquanto entrava no quarto carregando-a, sentindo o calor vibrante da vida nela. Afastou-se apenas o suficiente para sussurrar contra a sua boca:
— Que alívio… Deixe-me fechar a porta para termos privacidade.
Ficaram assim por um tempo imensurável, até ela tocar os pés descalços no chão de madeira fria e perguntar, ainda sonolenta:
— Deu tudo certo na tal missão?
Soltando-a aos poucos, Ed assentiu.
— Missão cumprida. Permaneceremos aqui até a meia-noite. Se ficarmos quietos e longe de riscos, o espectro da morte não terá como alcançá-la.
... Continua...
imagem by: Pinterest.com
ARMADILHA DO TEMPO
Volume Um


O universo Shadow é um mergulho literário que vai além do inimaginável. Boa leitura!
Clique no link abaixo para CONTINUAR LENDO...
Navegue
Explore em breve nossas redes sociais
Contact
FALE COM A GENTE
suporte@sphinx-hub.com
© 2026. All rights reserved.
