Esta Saga em seus dez Volumes continuará sendo disponibilizada com exclusividade aqui neste portal. Ela tem roteiro original e foi escrita para os nichos literários Hard Sci-Fi (Ficção Científica fundamentada), Romance Histórico/Épico e Romantasy (Romances maduros de fantasia/ficção). Nela há descrições de violência gore e conotação sexual. Não contém cenas explícitas, mas é recomendável para público adulto.
Continue acompanhando o desenvolvimento do casal temporal.
Obrigado por ler.


Capítulo 23
Salto para o futuro
Ed omitiu a avaria no dispositivo de gálio e o confronto sangrento contra os espiões; não havia razão para sobrecarregá-la com o peso dele estar séculos antes de sua própria realidade quântica.
— Eu vou adorar ficar só na cama… — ela sorriu com um toque de malícia, logo substituído por uma dúvida que obscureceu seu semblante.
— Mas... e depois? O que será de mim?
— Vou levar você comigo. Você quer?
Ele próprio se surpreendeu com a oferta; as palavras saíram de forma tão natural que pareceram brotar de sua alma.
— Ir para o fu...!
Antes que ela completasse a frase, Ed selou os lábios da garota com a mão.
— Shhhhh! Não fale alto. As paredes são finas e podem ter ouvidos. Sim… Quero levar você comigo para o meu tempo.
Falou deixando a bolsa sobre a mesa rústica. Em seguida, voltou-se para a jovem, envolveu o corpo esguio dela contra o seu peito e deitou-se com ela na cama.
— Não vamos mais sair hoje. Permaneceremos aqui, desse jeito… Ou desse outro.
Girou-a de forma repentina, deixando-a de bruços, o que arrancou dela um suspiro de susto feliz. Ele sussurrou bem próximo ao seu ouvido:
— E não se preocupe com a fome: já pedi na portaria para trazerem nossa refeição aqui em cima.
Ed, animado, comentou que a atendente estranhara o pedido, afirmando que só realizavam esse tipo de atendimento em caso de hóspede enfermo. O agente temporal, contudo, usara de astúcia ao argumentar que nas cortes de Madri e nas grandes hospedarias de Londres os cavalheiros exigiam a privacidade de comer nos aposentos — e uma moeda de prata resolvera o impasse. Foi então que um estalo mental o atingiu.
— Putz!... Talvez eu tenha acabado de inventar o primeiro serviço de quarto do mundo em solo inglês... Fazer o quê? Alguém precisava começar!
— Não entendi nada do que você disse — ela riu, confusa.
— Mas você não me deu tempo de responder: é claro que eu quero! Vou com você até o fim do mundo!
— Meu amor… Esta talvez seja a única opção capaz de não fraturar o fluxo do futuro.
Livy o olhou assustada por sobre os ombros, mas logo cerrou os olhos, sorrindo, quando ele a fez arrepiar com um carinho no pescoço. Nunca tinha ouvido aquele vocativo ser direcionado a ela. Ficou rubra, e um calor súbito invadiu seu corpo. Seria a palavra inédita, o toque em sua pele, ou o volume nítido que a pressionava por entre as camadas de roupa?
Na mente inocente de Livy, o universo parecia ter dobrado sobre si mesmo. Meu amor. As palavras ecoavam como o sino de uma catedral na qual ela jamais tivera permissão de entrar. Sob sua perspectiva, sentia que o assoalho do quarto não era mais feito de madeira velha, mas de nuvens.
Para quem passara a vida sendo um nada, a ideia de ir para o futuro — um lugar que na infância imaginara povoado por anjos e carruagens de fogo — não era tão assustadora quanto a força daquela expressão. Meu amor agora era o seu passaporte temporal.
A ela não mais importava se o amanhã fosse o fim do mundo ou o paraíso; desde que o braço dele continuasse sendo o seu travesseiro, o tempo era apenas um detalhe.
Livy sentia uma vertigem doce: o medo da morte, que a perseguia desde Rochdale, fora substituído pelo pavor de acordar e descobrir que Ed era apenas um sonho febril ou um delírio causado pela fome. O temor fez com que se apertasse ainda mais contra ele, ansiando por fundir suas peles, independente de onde fosse a conexão.
Queria garantir que, quando o salto quântico acontecesse, ela fosse parte integrante de sua estrutura, impossível de ser deixada para trás.
Após a refeição servida no quarto — talvez o primeiro delivery da história —, permaneceram deitados, Ed sentindo o peso reconfortante da perna de Livy sobre as suas. Observava-a com uma ternura que desafiava sua própria natureza lógica, enquanto meditava sobre as consequências que a intromissão no destino da jovem poderia acarretar à linha temporal. Pesou e mediu os riscos, alcançando um veredicto:
— Tenho uma teoria — sussurrou.
— Como nada mais tentou matá-la desde o combate na estrada, ontem, acredito que o espectro da morte aceitou o comerciante asqueroso como seu substituto. Ele estava no lugar certo, na hora errada, e o equilíbrio natural foi mantido.
Embora não assimilasse a profundidade lógica daquela conversa, ela concordou, inserindo sua própria perspectiva:
— Acho justo. Os demônios terão muita carne e banha para se banquetear no inferno, enquanto eu quase nada tenho a oferecer. Seria esse o motivo do aceite?
Ed divertiu-se com o sarcasmo afiado da jovem e complementou:
— Pode ser… Mas você possui algo que não lhe credencia ao abismo: nobreza de alma e coração. Embora seja uma ladra, agia por pura necessidade de sobrevivência; mendigava mantendo sua integridade moral intacta. E quanto à sua falta de carne… por acaso você me viu reclamar do tenho comido desde que a conheci?
Livy escondeu o rosto no pescoço do agente, tentando ocultar o novo rubor, mas o aperto de seus braços entregava tudo. O Comandante reassumiu o tom sóbrio:
— Agora, falando sério… Você desapareceu da vista do mundo ao ficar trancada aqui dentro. Após a meia-noite, quando iniciarmos o movimento de saída, esconda o rosto na balaclava e sob o capuz. Não fale nada e nem encare a atendente no saguão. Partiremos para o meu tempo. Lá, sua presença afetará apenas o meu presente e o futuro que escreveremos juntos.
— Seguirei o seu plano à risca… Mas e lá? Como será?
Livy questionou, dividida entre a curiosidade ingênua e o pavor do desconhecido.
— Iremos para o meu refúgio, uma propriedade chamada Rancho Nevado. É um recanto belíssimo no continente que vocês conhecem como Novo Mundo, do outro lado do oceano. Fica distante do caos e de tudo o que você não precisará conhecer por enquanto. Um lugar onde os cavalos viverão livres de arreios e soltos no pasto, perfeito para todos, inclusive você, se adaptarem aos poucos.
— V… Você vai levar até os… Cavalos?
Livy ergueu a cabeça, com os olhos arregalados de surpresa.
— É claro que sim, todos os três mereceram, nos serviram bem. Prometi à sua éguinha um campo verde onde ela pudesse envelhecer em paz, e nada melhor do que ter a companhia de seus iguais. Eu cumpro minhas promessas, até mesmo as feitas aos seres irracionais.
E finalizou, voltando ao tom sério:
— Livy, o mundo lá fora está irreconhecível, mas a natureza não mudou tanto em quase trezentos anos.
A refeição pesada e a intensidade dos exercícios íntimos após o retorno da missão a deixaram exausta; logo a jovem cedeu, enfim, a um sono profundo. Ed tinha o restante da tarde livre e aproveitou o silêncio para examinar o dispositivo.
A blindagem exterior fora projetada para resistir a múltiplos impactos e cenários adversos sem comprometer o núcleo funcional. Apenas o setor fotônico do comunicador estava mudo; o reator molecular que viabilizava o salto permanecia intacto e operacional, alimentando o vetor condutor entre as eras através do rastro quântico na linha temporal.
Anoiteceu e a meia-noite chegou com o peso de uma era que se findava.
Ao descerem para o fechamento da conta, Livy manteve o combinado: em silêncio, rosto baixo e sempre atrás dele; foi impossível ignorar o riso cínico da recepcionista, evidenciando que os ruídos característicos vindos do quarto haviam ecoado por toda a estalagem ao longo da noite anterior.
A funcionária parecia aliviada ao vê-los partir; finalmente o silêncio retornaria àquelas paredes de madeira. Foi compensada pelo transtorno com outra moeda generosa. Todos os recursos que custearam a estada do agente no Velho Mundo, parte fora retirado do finado mensageiro que agora repousava seus ossos sob a terra rasa de uma estrada esquecida; Outra parte foi bancado pelo soldo pago pelo boticário.
O ar fresco do início da madrugada os recepcionou como um abraço gélido. O vento esvoaçava suas capas enquanto recuperavam as montarias das mãos do cavalariço do estábulo, também regiamente gratificado. Um agrado extra por ter saído da cama e prepará-los para a viagem.
Ed ajudou a jovem a subir em seu garanhão negro e altivo — uma montaria que impunha respeito. Mapeou o entorno pelo visor do Cronovítreo ao colocar os pés fora do estabelecimento; ainda havia riscos latentes. Os espiões franceses, embora teoricamente fora de combate, poderiam ter recebido reforço para tentar reaver o artefato, e a sombra da execução ainda podia espreitar os passos de sua parceira.
Com cautela extrema, ganharam a estrada, o visor futurista não admitia sombras à sua revelia. As luzes de Manchester tornaram-se apenas brasas distantes no horizonte, até sumirem em definitivo atrás de si.
Ed puxou Livy para seu cavalo, acomodando-a em seu colo, replicando a posição íntima de quando tiveram o primeiro contato físico. Ele a abraçou, sussurrando contra sua face uma promessa solene:
— Vamos ver até onde esta nova vida nos levará. Meu nome é Edinelson Corderö Nuñez. Sou um navegante... Não dos mares, mas do tempo. E você, Livy Emanuelle, em breve saberá que não importa para onde a maré das eras nos empurre, eu estarei lá, junto a você.
Após registrar todas as células carboníferas das montarias e dos viajantes, o protocolo de assepsia quântica executou a varredura padrão de segurança. Ed pediu que Livy o abraçasse firmemente e, com o rosto dela colado ao seu peito, cobriu-a com a manta para blindar seus olhos.
Os três cavalos já estavam com as visões cobertas por vendas de pano escuro, impedindo que o clarão cintilante da transição os assustasse.
Então, o Comandante acionou manualmente o acoplamento do Ressonador Temporal.
Um invólucro de partículas em flutuação galiônica os envolveu por completo, distorcendo a malha do espaço-tempo e colapsando as coordenadas da realidade ao redor.
Em um piscar de fótons, eles desapareceram, deixando para trás apenas a lama da estrada e o eco silencioso da história.
FIM DO VOLUME UM
imagem by: Pinterest.com
ARMADILHA DO TEMPO
Volume Um


O universo Shadow é um mergulho literário que vai além do inimaginável. Boa leitura!
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