Esta história tem roteiro original e foi escrita para os nichos literários Hard Sci-Fi (Ficção Científica fundamentada), Romance Histórico/Épico e Romantasy (Romances maduros de fantasia/ficção). Nela há descrições de violência e conotação sexual. Não contém cenas explícitas, mas é recomendável para público adulto.


Capítulo 20
O banquete das almas
Acostumado a proferir com eloquência, ordens motivacionais a seus soldados antes de cada batalha, o Comandante SEAL agora nada tinha a falar. Então Livy quebrou o silêncio:
— A carne vai esfriar... — ela sussurrou, provocativa, com a voz rouca e os olhos fixos na silhueta imponente do homem que havia dobrado o destino por ela.
— Que esfrie — Ed respondeu, a voz vibrando como um trovão baixo.
— Tenho um banquete muito mais suculento na minha frente.
Ele não a tocou de imediato; despiu-se com a lentidão cerimonial de quem aprecia o ritual. Quando finalmente se uniram sobre o colchão macio, a carne assada sobre a mesa foi esquecida. A carne crua, servida no altar daquela cama, exigia atenção total e devoção absoluta.
Ed a explorou com a ponta dos dedos como quem mapeia um território sagrado: percorreu cada vertente dos vales, sem desviar das curvas de morros e montanhas, mergulhando sem a mínima pressa no canal de acesso ao seu paraíso. Parecia querer provar o sabor da própria existência através do êxtase dela.
O ruído começou em sussurros e gemidos contidos, mas logo escalou para a sinfonia inconfundível de virilhas se chocando e respirações ofegantes. Lembrar que a espessura das paredes era ínfima ou que o mundo lá fora conspirava contra eles?
Impossível!
Cada suspiro de Livy, a voracidade de cada arfar pesado de Ed, o atrito de pele contra pele na alternância de posições... Enquanto ele a dominava sobre aquele colchão, os cabelos castanhos servindo de arreio para conter a fúria da jovem à sua frente... nada mais importava.
Nem mesmo o ranger rítmico da cama, que teimava em caminhar pelo assoalho e se chocar continuamente contra a parede, reclamando do esforço exigido, foi capaz de pará-los. Aqueles eram os sons da liberdade de duas almas que, por um instante, haviam esquecido e superado a própria Morte.
Livy sentia que o mundo, com todas as suas lâminas e perseguições, havia finalmente silenciado do outro lado daquela porta trancada. No calor do quarto, o cheiro de Ed — uma mistura de suor, couro e promessa de proteção — era o único ar que seus pulmões aceitavam.
Enquanto ele a possuiu sobre aquele colchão macio, a sensação de ser preenchida foi muito além da carne; era como se estivesse ocupando cada espaço vazio que a solidão das ruas havia cravado em sua alma.
Cada avanço rítmico que fazia a cama protestar contra a parede era um lembrete ensurdecedor de que ela estava viva, de que não era mais um fantasma invisível em 1798, mas o centro do universo daquele guerreiro.
Sob o toque dele, ela se sentia expandir. Não havia vergonha no som característico de seus corpos se chocando ou nos gemidos que escapavam sem filtro; para Livy, aquele estrépito era o som de sua alforria.
Estar entre lençóis brancos e limpos, sentindo o peso bruto e ao mesmo tempo zeloso de Ed sobre si, trazia uma segurança erótica que ela jamais ousara sonhar. Ele não apenas a habitava fisicamente; ele a ancorava no presente, expulsando as névoas de seu passado sombrio com o calor e a força de sua virilidade.
Naquele banquete, ela não era apenas uma convidada, era o próprio prato principal; era a vida se reafirmando, celebrando o fato de que, entre quatro paredes e sob a guarda de seu Lobo, a Morte não tinha permissão para entrar.
Se os vizinhos de quarto perderam o sono ou se sentiram estimulados ao mesmo ritual enquanto a estrutura da estalagem tremia, era uma insignificância diante do universo que os dois haviam criado.
Naquela noite, em Manchester, eles não eram apenas fugitivos ou viajantes; eram deuses em sua própria anomalia temporal, saciando uma fome que nenhuma iguaria terrena seria capaz de aplacar. Exaustos, finalmente foram vencidos pelo cansaço e dormiram.
Cedo pela manhã, antes que o sol de Manchester conseguisse vencer a cortina de fuligem das chaminés, Ed preparou-se para sua última missão em solo inglês. Esta era a escala mais perigosa, onde as linhas do tempo se estreitavam e o erro não era uma opção. Antes de partir, ele se aproximou de Livy. A seriedade em seu rosto não admitia dúvidas:
— Você não pode e nem deve, sob qualquer pretexto, sair deste quarto. Fique aqui dentro, descanse até o meu retorno, que será antes do meio-dia. A única exceção que justifique a sua saída será se a estalagem estiver em chamas. Fora essa hipótese improvável, a porta deve permanecer trancada por dentro.
Aquilo não era um pedido, era uma ordem. Embora, após ter sido abandonada nas ruas, Livy jamais tivesse dado ouvidos a ninguém a não ser a si mesma, ela sabia que sua vida dependia de obedecer àquele comando.
Ed ensinou-lhe uma batida secreta, um código rítmico demasiadamente clichê: três toques curtos, uma pausa deliberada e duas batidas secas. Aquele seria o único sinal seguro de sua identidade.
Livy sentiu o frio do medo retornar ao perceber que ficaria novamente sozinha. Com a voz embargada, questionou:
— E se algo lhe acontecer? Se os homens da lei ou algum bandido o impedir de retornar? O que eu faço sozinha nesta cidade? O que será de mim?
A resposta de Ed foi seca, pragmática.
— Se eu não voltar até o meio-dia, use as moedas que deixei no forro da mala.
Ele não podia prometer o que não controlava; aquele era o dia fatal dela, e o seu relógio biológico marcava menos de dezesseis horas para o zero absoluto à meia-noite.
Ela teria que ser prática: pagar a estadia na estalagem e o pouso dos animais, que deveriam ser vendidos a qualquer preço ou doados; pedir na portaria uma hackney coach que a conduzisse até o coaching office da Bridgewater Arms; subir em uma stagecoach em direção ao porto de Liverpool e comprar passagem no primeiro navio ou barcaça que zarpasse para fora do território britânico.
— Vá para Lisboa, depois se esconda do mundo; não fale meu nome em voz alta e mude o seu. Sobreviva. Se eu não voltar, mesmo que eu morra, eu te encontro.
Isso não era uma metáfora, mas não havia tempo para fazê-la entender de pronto seu significado. Em seguida a instruiu sobre o perigo de não possuir documentos, um problema crítico naqueles anos em que a paranoia com espiões franceses estava no ápice.
Os capitães eram obrigados por leis federais britânicas a registrar cada passageiro nos manifestos de bordo. Contudo, o submundo portuário de Liverpool era um monstro de engrenagens cruas, um antro de fumaça de carvão, lodo e corrupção sistêmica.
De Manchester até o porto vizinho, haviam armadilhas letais capazes de engolir uma camponesa viva, triturando suas entranhas no café da manhã.
Para uma jovem de dezoito anos, cruzar aquelas docas, desacompanhada de algum mestre ou responsável viril, significava caminhar por um território dominado por salteadores, agenciadores de escravas brancas e marinheiros inescrupulosos que matavam por um par de botas usado.
Ela seria uma presa fácil, uma cordeirinha entre lobos ávidos por carne nova. O único escudo dela seria o suborno velado e principalmente, jamais demonstrar fraqueza, carniceiros se alimentam do medo, o sentem no ar; mas naquelas docas sombrias, pagando taxas extras com shillings de prata aos atravessadores por fora do balcão, comprava-se a escolta segura.
Colocar na mesa do booking clerk uma Spade Guinea de ouro, fazia com que até o mais patriota dos fiscais fingisse cegueira, e conseguia-se um camarote sem maiores perguntas.
Por fim, Ed deu um ultimato fatal: zelar pelas moedas, pois mostrá-las em público não lhe abriria portas, mas sim sua garganta com alguma ágil navalha antes mesmo de partir da Grã-Bretanha.
— Você aprendeu a se defender nas ruas de Rochdale, mas as hienas sanguinárias nos portos não hesitarão em degolar uma jovem sozinha por um punhado de libras. Seja invisível e desconfie até de sua sombra.
Enquanto ela processava o significado enigmático e a gravidade daquelas declarações, Ed saiu antes que ela pudesse retrucar. Selou o compromisso de retorno com um beijo terno; ela já sabia discernir a diferença entre um juramento vazio e o aço da palavra dada por seu herói. Trancou-se de imediato por dentro.
Na rua, já movimentada pelo som de carroças e pelo burburinho dos operários, tomou uma hackney carriage de aluguel. Seguiu em direção à zona industrial, onde as sombras escondiam segredos sob névoa e fuligem.
... Continua...
imagem by: Pinterest.com
ARMADILHA DO TEMPO
Volume Um


O universo Shadow é um mergulho literário que vai além do inimaginável. Boa leitura!
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