A INTELIGÊNCIA AMANTE: ONDE O PASSADO ENCONTRA O FUTURO

Esta história tem roteiro original e foi escrita para os nichos literários Hard Sci-Fi (Ficção Científica fundamentada), Romance Histórico/Épico e Romantasy (Romances maduros de fantasia/ficção). Nela há descrições de violência e conotação sexual. Não contém cenas explícitas, mas é recomendável para público adulto.

Capítulo 21

O códice tártaro

Antes de partir, Ed havia ativado um rastreador passivo de baixa emissão na bolsa de Livy. Era a garantia absoluta de localizá-la caso o pior acontecesse com ele; um Plano B estruturado em uma dinâmica cujo conhecimento pertencia estritamente a ele.

Não importava se ela partisse para a América ou escolhesse voltar às raízes orientais, a assinatura na costura do couro o guiaria até o seu paradeiro exato. Era o máximo que podia fazer sem violar a diretriz operacional. O resto ficava por conta do destino e da sorte que guiasse os passos da fugitiva.

A Europa não era mais lugar seguro com o general corso amassando o Velho Mundo sob suas botas. O universo ainda não sabia, mas em pouco tempo, precisamente em novembro de 1807, até mesmo a Rainha de Portugal, Dona Maria I (a Louca), e o então príncipe regente Dom João, junto de toda a corte portuguesa, atravessariam o Atlântico rumo ao Brasil, fugindo de Napoleão…

Como censurar qualquer decisão errada que uma jovem sozinha tomasse em sua própria fuga?

O cenário que se revelava além da janela da hackney carriage era o retrato cru do progresso parido pelo caos. As vias de Manchester não conheciam ainda o luxo do calçamento bem cuidado; eram artérias de terra batida trituradas continuamente por rodas de ferro, transformando os caminhos em um mar de lama negra e viscosa, misturada a dejetos animais e fuligem condensada.

Nas calçadas estreitas, a massa humana movia-se em um formidável e silencioso formigueiro: operários esquálidos com rostos manchados de carvão e desprovidos de ânimo caminhavam apressados rumo aos turnos das fábricas de algodão, dividindo espaço com crianças maltrapilhas de pés descalços e vendedores ambulantes que gritavam em meio ao ar pesado de odores múltiplos.

Ed observava o movimento protegido pelo interior claustrofóbico do veículo de aluguel — uma cabine fechada de madeira escura e bancos de couro gasto que cheiravam a umidade e mofo. O veículo certamente já vivera dias melhores, talvez conduzindo senhoras da alta estirpe ou nobres de passagem; porém agora, para não contrair uma infecção respiratória, o agente precisava proteger as narinas com a balaclava erguida.

Do lado de fora, sob o frio da manhã, o cocheiro seguia austero. Trajava um casaco de lã grosso e uma cartola de feltro castigada pelo tempo enquanto chicoteava a dupla de cavalos cansados que forçava os cascos contra o lodo. O chacoalhar violento da carruagem ditava o ritmo daquela descida ao inferno industrial.

À medida que avançavam, as habitações operárias davam lugar à silhueta monstruosa das chaminés de tijolos vermelhos que vomitavam fumaça preta contra o céu cinzento.

O destino final era a franja mais sombria daquela zona: uma velha tecelagem de lã manual abandonada, um esqueleto de madeira e alvenaria devorado pelo surgimento das modernas máquinas a vapor, cujas janelas quebradas pareciam órbitas cegas testemunhando o fim de uma era.

Ed desembarcou em um cruzamento movimentado nos arredores, buscou ocultar-se de imediato da vista de todos.

Esgueirando-se entre a névoa e a indiferença dos locais, confirmou a localização do complexo desativado, cuja logomarca — um grande “W” estilizado dentro de um círculo quase apagado na fachada — não deixava dúvidas.

O galpão principal ostentava um vasto terreno tomado por vegetação rasteira abundante e ferro-velho descartado. Eram forjas, caldeiras e pesados maquinários de tingimento que outrora queimavam carvão ou madeira bruta, mas que agora jaziam obsoletos, esmagados pelo avanço implacável da Revolução Industrial.

Essa era a engrenagem da vida: o velho precisava sair para o novo assumir, sem direito a um desfecho digno, reduzido a descarte em lixões ou, no comparativo humano, ao esquecimento de um asilo.

A hora definida para a entrega do manual aos espiões franceses era às onze horas. Chegando com duas horas de antecedência, o Comandante pretendia tomar posse do artefato e concluir a missão sem o risco de um confronto.

Após uma rápida vistoria de segurança, ele se infiltrou de forma furtiva por entre as peças ao relento. Diante de uma robusta porta dupla, destravou o pesado cadeado com um pulso magnético do Ressonador e, guiado pelo mapa tomado do mensageiro, identificou o alvo.

Avançando pela ala térrea, cruzou fileiras de antigos teares de madeira abandonados ao tempo e às aranhas. Olhando para aquelas carcaças esqueléticas, Ed quase podia ouvir o eco do ruído fantasmagórico que até poucos anos dominava o recinto; o estalo seco e ritmado que cada máquina emitia ao completar um giro completo de tecedura. Agora, restava apenas o silêncio do esquecimento.

No fim do corredor, encontrou a escadaria que conduzia ao porão escuro. Venceu cerca de um metro e setenta de declive e forçou a pesada folha de ferro. Ela cedeu, rangendo alto.

A luz de uma claraboia estreita revelava um cemitério de objetos esquecidos: pilhas de madeira, galões de óleo vazios e, sob panos mofados, uma antiga prensa tipográfica, herança esquecida da genialidade de Johannes Guttenberg. Quantos panfletos subversivos, capazes de derrubar impérios, teriam sido forjados ali?

Ed ativou o Modo Espectro do Cronovítreo. Não se tratava de projeção de luz, mas sim de uma amplificação de fótons residuais projetada direto em sua retina; para quem olhasse de fora, o porão continuava imerso na penumbra.

Aquele era o ponto exato marcado com o “X” no mapa rústico retirado do finado mensageiro. O Comandante buscava o Códice Cifrado — um artefato remanescente da tecnologia perdida da suposta Velha Tartária.

Para os homens de 1798, aquilo era apenas um objeto curioso; para o General Corso, seria a arma tática definitiva, um dispositivo tecnológico capaz de criptografar mensagens de forma célere.

No futuro distante, especificamente em 1926, surgiria um mecanismo aperfeiçoado com as mesmas funções nas mãos da Reichsmarine alemã. Mais tarde, em 1933, seu uso se tornaria massivo pelo Terceiro Reich, que a denominaria de Enigma, causando sérios problemas até ser finalmente decifrada pelas forças Aliadas.

Diante da impressora, uma engenhoca de ferro, réplica mais moderna da concepção original de 1440, obra genial da mente inventiva do famoso tipógrafo alemão, Ed retirou com cuidado os rolos de entintagem da prensa e desparafusou uma placa oculta. Tateando seu interior, em um ponto completamente fora do campo de visão, seus dedos encontraram o metal frio.

Era a Chave. Não era grande, nem estava operante; tratava-se de um protótipo que, em mãos criativas, uma engenharia reversa recuaria o avanço da tirania francesa em alguns anos.

— Missão cumprida, agora devo sair daqui antes... Ops!... Tem algo errado!

Seu Cronovítreo pulsou um alerta tardio em sua retina no instante em que guardava o Códice em sua bolsa:

“Presença hostil detectada!”

O silêncio do porão foi quebrado pelo ruído áspero do ranger da porta de ferro sendo empurrada abruptamente. Ele não estava mais sozinho. Três figuras vestidas com pesados casacos de viagem surgiram no umbral da entrada, encurralando-o. Eram os espiões franceses, letais e coordenados.

Um estava armado com uma adaga, outro portava um blackjack e o terceiro apontava uma pistola de pederneira diretamente para suas costas. Chegaram cedo demais, uma antecipação que até mesmo Aletheia falhara em prever. Seriam o Plano B de alguém ou a enigmática frase “À la voyeur” do boticário finalmente ganhava forma e rosto?

O encontro com o Juiz de Paz no portão de Rochdale e o confronto com os capangas do comerciante asqueroso na estrada haviam atrasado seus planos. Ed deveria ter chegado com o sol às suas costas e tempo para recuperar o artefato ainda no dia anterior, mas o destino operava sob outro cronograma.

Salvar Livy virou a prioridade que justificava qualquer risco. Caso ficasse para trás, ela se tornaria uma presa fácil. Sob tortura, até mudo fala. E a jovem sabia do futuro; transformou-se em uma anomalia viva, uma ponta solta em um mundo que não dá ponto sem nó.

Abandonar uma alma que ele próprio contaminara com conhecimento anacrônico o tornaria um alvo direto da Galiometria. A lei operacional é clara: sujou, limpa ou assume.

Levá-la consigo era mais sensato do que guerrear contra o amanhã e, com certeza, bem mais barato do que apagar Manchester inteira.

... Continua...

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ARMADILHA DO TEMPO

Volume Um

O universo Shadow é um mergulho literário que vai além do inimaginável. Boa leitura!

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