A INTELIGÊNCIA AMANTE: ONDE O PASSADO ENCONTRA O FUTURO

Esta história tem roteiro original e foi escrita para os nichos literários Hard Sci-Fi (Ficção Científica fundamentada), Romance Histórico/Épico e Romantasy (Romances maduros de fantasia/ficção). Nela há descrições de violência e conotação sexual. Não contém cenas explícitas, mas é recomendável para público adulto.

Capítulo 19

Manchester

No caminho, já no meio da tarde, alcançaram uma caravana familiar que os fez reduzir o passo. Era um comboio de duas carroças, ambas cobertas por lonas gastas pelo tempo, cada uma puxada por dois cavalos que caminhavam lado a lado com lentidão, como se um desânimo os tivesse atingido.

Ao ultrapassar o veículo que puxava o pequeno comboio, Ed deparou-se com um homem de semblante sofrido, cujas mãos calejadas controlavam os arreios.

Com um cumprimento rápido e respeitoso, ele puxou conversa, mostrando-se amigável ao desconfiado condutor. Em um gesto de camaradagem, aceitou encher seus cantis com água, mas seu instinto foi além.

Movido por uma compaixão genuína, ele cedeu o restante de seus mantimentos e entregou ao homem duas das bolsas de moedas retiradas dos mercenários mortos, fazendo-lhe apenas um pedido entre dentes:

— Esconda isso no local mais secreto possível da carroça. São a garantia de um futuro digno para seus filhos, não podem cair em mãos erradas.

Ed mentia com a fluidez de quem dizia a verdade — um engodo necessário para limpar a sujeira que acabara de fazer na linha do tempo. Aquelas moedas não eram um futuro digno; eram um passado criminoso, provas materiais de um abatedouro na estrada. Eram objetos fora do lugar em uma malha temporal que já estava observando os seus passos perto até demais.

Os olhos espantados daquele homem conflitaram com o sorriso de gratidão de sua esposa, de suas bocas saíram muitas glórias a Deus e bênçãos à bondade que ainda vive no coração de algumas poucas pessoas.

Livy observava tudo em silêncio.

Viu nos olhos daquela família — pai, mãe, uma filha adolescente e duas crianças pequenas — a memória do que fora sua própria tragédia familiar. O reflexo das consequências que tempos sombrios carregam atingiu seu âmago.

Lembranças vagas de estar na estrada entre vilarejos pela Europa com sua mãe, vivendo entre ciganos, vinham como flashes de imagens distorcidas sob uma espessa névoa em sua mente.

O tempo avança, o lugar muda, mas o drama humano é cíclico: a desumanidade latente de pessoas de má índole e governantes que forjam guerras desnecessárias, indiferentes ao sofrimento que isso submeterá o seu povo, tudo apenas para alimentar seus egos.

Aquela família era o que ela foi há pouco tempo: refugiados da vida, sobreviventes invisíveis de guerra, carregando apenas a dignidade e a fé como bagagem, últimos suportes em busca de fronteiras mais seguras.

Eles ficaram para trás, mas agora tinham nas mãos algo mais que esperança.

Já estava escuro na estrada quando as primeiras luzes das luminárias a óleo de Manchester surgiram no horizonte, cintilando como promessas distantes. Apressaram o passo e logo se aproximaram das primeiras casas da periferia.

Foram direto para uma estalagem de boa aparência, com um estábulo robusto para garantir aos cavalos uma alimentação de qualidade e acomodações apropriadas.

Após conseguir um quarto com banheira — um luxo extravagante que apenas em grandes cidades se oferecia, Ed queria garantir com esse gesto, um cuidado quase paternal, sabendo que a recompensa seria transformar a gentileza em algo mais naquela cama macia; adquiriu sais aromáticos na recepção e as camareiras prepararam um banho de imersão para Livy.

Enquanto a jovem afundava na água perfumada da grande banheira de cobre, Ed desfez-se de suas roupas da estrada diante dela. Com a eficiência prática do soldado de elite que é, encharcou uma flanela na água fumegante, despejada da jarra de louça em uma bacia.

Livrou-se da fuligem do pescoço e dos ombros, terminando por despejar o restante do líquido morno sobre a cabeça para despertar os sentidos. Em seguida, vestiu trajes limpos de linho, apanhou um punhado de moedas e saiu para buscar provisões, trancando-a por fora e levando consigo a chave.

Do lado externo a morte ainda espreitava, apenas aguardando um descuido ou uma oportunidade para atacar.

Livy fingia não se importar com o que presenciara, mas seus sentimentos a entregava, e com todos esses mimos e cuidados, Ed tecia a rede de segurança que a prenderia a ele em definitivo, não por obrigação, mas por uma dependência doce e absoluta.

Trajando roupas comuns e casuais para se misturar à multidão, ele seguiu o movimento vibrante das ruas. Logo, o cheiro de gordura e tempero misturado à fumaça de algo assando o conduziu a uma tenda popular em uma praça pulsante. O local fervilhava com música desafinada e uma dança animada, onde a carne, fosse de cervo, javali ou de gado, estava no ponto exato e prometia saciar a fome de ambos.

Três belas mulheres, de fala manhosa e olhares famintos por diversão e moedas, logo o cercaram; os elogios não eram falsos; Ed era um homem que se destacava dos demais, mas elas atacarem em grupo aumentava suas chances de o tornarem uma presa fácil.

Estrategista mesmo nos momentos de lazer, ignorou os apelos com um sorriso gentil, mas colocou de forma tendenciosa uma moeda no vão dos belos seios de cada uma delas enquanto esperava embalarem a carne para viagem.

As moedas eram no valor suficiente para pagar de forma espontânea uma caneca de chope àquelas damas. Sabia que uma rejeição abrupta poderia fazê-las partir para o Plano B: fingir ofensa para atrair os cafetões e seus lacaios, iniciando um conflito desnecessário que chamaria a atenção dos Night Watchmen ou dos Constables, sempre atentos às confusões.

Ed gastava as moedas recebidas do boticário, o “à la voyer” foi um aviso ou era paranoia pura? Melhor pagar chope que perder a cabeça. E Aletheia não estava online pra limpar se desse merda.

Lembrou-se de comprar uma garrafa de vinho, ele tinha pressa e intenção. Cada fibra de seu corpo ansiava pelo retorno. Sabia que, no calor daquele quarto reservado, uma jovem linda, cheirosa e transbordando gratidão o aguardava para uma noite de prazer real, longe da lama e do frio, entre o conforto das penas de ganso do travesseiro e o cheiro de lençóis limpos.

Quando Ed girou a chave na porta do quarto ao retornar, o aroma da carne assada e das especiarias da festa de rua foi imediatamente atropelado pelo perfume inebriante dos sais de banho que emanava do corpo de Livy.

Ela estava deitada de costas sobre a toalha estendida na colcha de retalhos; seus seios pequenos, em uma postura que desafiava o controle da gravidade, fizeram a boca de Ed se entreabrir de imediato.

Suas pernas estavam puxadas, com os calcanhares na dobra das nádegas, em conluio com as sombras impertinentes que ocultavam a visão direta às portas do paraíso. Com os joelhos apontados para o alto, criavam uma ponte ao prazer emoldurada pelas mãos delicadas em seu topo.

Essa era uma visão divinal!

Sua cabeça descansava no travesseiro macio, os cabelos espalhados como seda secando ao sol, enquanto a pele, ainda úmida e reluzente, desenhava curvas e silhuetas definidas sob a dança das chamas das velas.

Não era apenas um convite; era uma provocação silenciosa, uma obra de arte viva que servia de colírio para os olhos famintos do agora paralisado guerreiro.

Ed pousou o embrulho de comida e o vinho sobre a mesinha de madeira do criado mudo. Seus olhos eram como planetas que circundam o sol, fixos em sua órbita celeste; sua respiração era nula.

Estava rendido, enfeitiçado pela visão. Seus olhos finalmente deixaram o corpo dela e encontraram as suas pupilas, fixas nele; o silêncio que se seguiu veio carregado por uma tensão elétrica.

Ela era uma pimenta invisível, fazendo o sangue arder.

... Continua...

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ARMADILHA DO TEMPO

Volume Um

O universo Shadow é um mergulho literário que vai além do inimaginável. Boa leitura!

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