A INTELIGÊNCIA AMANTE: ONDE O PASSADO ENCONTRA O FUTURO

Esta história tem roteiro original e foi escrita para os nichos literários Hard Sci-Fi (Ficção Científica fundamentada), Romance Histórico/Épico e Romantasy (Romances maduros de fantasia/ficção). Nela há descrições de violência e conotação sexual. Não contém cenas explícitas, mas é recomendável para público adulto.

Capítulo 18

Batismo na água

Ed devolveu à Livy a bolsa de moedas do gordo. Ela fez por merecer, após tolerar o hálito de cebola misturado ao vinho ruim e outros odores impossíveis de identificar. Em seguida, pegou as bolsas dos demais homens. Eles foram bem pagos para eliminá-lo e nenhum deles precisaria de ouro onde estavam agora. Guardou todas para si, pois sujavam a linha temporal; levá-las para o futuro ou diluí-las no comércio de Manchester eram as únicas opções.

O trabalho seguinte foi macabro, mas necessário: Após empurrar os corpos dos mercenários para que rolassem pela ravina até um despenhadeiro íngreme e inacessível, Ed precisou da ajuda de Livy para mover o Colosso.

O corpo pesadíssimo do comerciante teimava em grudar no lodo, transformando o ato sombrio em uma cena de humor negro involuntário. Entre risos de frustração e a euforia de cada palmo conquistado, o corpanzil finalmente passou da beirada, ganhou velocidade e rolou feito uma rocha rumo ao abismo.

As chuvas que ameaçavam cair das nuvens negras logo lavariam o sangue da estrada, diluir-lhe-iam os vestígios e se infiltrariam no solo, apagando as marcas da luta. O tabuleiro ficaria limpo.

Mesmo que o único sobrevivente contasse outra história ao Juiz de Paz, este dificilmente investigaria a fundo. Faria um relatório aos superiores da Província que, com Napoleão ameaçando enviar tropas para a Bretanha, tinham um problema bem maior para se preocupar do que um conflito gerado pela própria vítima. Arquivariam o registro e vida que segue.

Aletheia guardaria esses dados para, no tempo certo e na hora precisa, apagar o registro, limpando de vez qualquer resquício da passagem de Ed pela região no ano de 1798.

Exausto pelo esforço, Ed tomou posse do cavalo árabe do balesteiro. Agora carregaria a amazona; a égua seria o apoio de carga, um trabalho bem mais suave para a anciã equina. Os demais animais foram atiçados a voltar aos seus estábulos originais, e o casal finalmente partiu em trote constante para Manchester.

Precisavam recuperar o tempo perdido, mas o confronto servira para provar, definitivamente, o valor de Ed aos olhos de Livy. Para reduzir a eletricidade que ainda sibilava no ar, Ed puxou conversa:

— Vencemos o quarto desafio contra a morte!

— Quarto desafio? Como assim? De que desafio você está falando? — indagou Livy, franzindo a testa.

— Acompanhe meu raciocínio: Você está marcada para morrer até amanhã; jamais se esqueça disso!

Livy seguiu atenta, absorvendo a sabedoria dele como uma esponja.

— Estou conseguindo intervir, mas a morte é resiliente; ela contorna os obstáculos e busca novos meios de se concretizar.

Ed continuou sua explanação lógica, afirmando a subjetividade dos dois primeiros desafios: Mesmo que ele não tivesse cruzado seu caminho, ela teria roubado a bolsa do mesmo jeito e seria caçada, violada e morta pelos homens do comerciante.

O destino dela mudou quando ele aceitou levá-la até o boticário; foi ali que sua aura transmutou do roxo da morte para o azul-royal — uma cor ainda próxima do perigo, mas que lhe deu esperanças. Ela assentiu, fascinada. Ele prosseguiu:

— Se você realmente estivesse dormindo ou não se revelasse após ouvir minha conversa no aparelho ressonador, eu não a traria comigo.

Na hipótese dela não ter ouvido por estar dormindo, os capangas a pegariam na vila. Mas se ao ouvir, voltasse para as cobertas, ela certamente contaria o que viu a alguém na rua, este lhe denunciaria, e sua morte seria na forca sob a acusação de charlatanice e causar tumulto no povo supersticioso, ou por maus tratos nas mãos de algum médico sádico de manicômios.

— Nossa... isso faz sentido... Eu vi enforcarem uma mulher em praça pública certa vez... foi horrível... o corpo dela debatendo-se no ar, coitada... Deus me livre desse destino!

Ed fez uma pausa, olhando-a fixamente. Não queria assustá-la, apenas alertá-la.

— A terceira intervenção foi quando o juiz tentou prendê-la para o enforcamento. A quarta foi há pouco, nesta estrada. Entenda que precisamos de cautela extrema. A morte é muito mais persistente e astuta que qualquer vilão de carne e osso.

O restante da manhã seguiu calmo. Ao meio-dia, buscaram refúgio sob a copa densa de árvores próximas a um córrego de águas claras. Enquanto Ed preparava o fogo, Livy o observava em silêncio.

Sua vida dera um giro de 180 graus. Há vinte e quatro horas, ela era uma mendiga ladra; agora, sentia-se uma rainha protegida por um deus.

Ali, à beira do córrego, o desejo que começara a queimar na estrada finalmente transbordou. Lavaram a alma e o corpo nas águas geladas e, sobre a relva macia, entregaram-se um ao outro pela segunda vez.

Enquanto Ed a possuía com uma mistura de urgência e adoração, a mente de Livy era um turbilhão de sensações que ela não conseguia nomear. Ela não sentia apenas o prazer físico que a fazia arquear as costas, mas uma gratidão visceral que se fundia ao desejo. Para ela, aquele ato era um selo de propriedade e, ao mesmo tempo, de liberdade.

Ela olhava para os braços fortes dele e sentia a pressão das mesmas mãos que lhe acariciavam as curvas e, horas antes, manejavam o aço com uma letalidade divina.

Havia uma segurança erótica em saber que aquele homem, capaz de dizimar cinco inimigos sem piedade, a tocava com uma ternura que a fazia se sentir uma peça de cristal.

“Ele me escolheu” — ela pensava, enquanto enterrava as unhas nas costas dele.

“Entre dez mulheres, entre a morte e a vida, ele me escolheu”.

Ela sentia que a vitalidade dele era como o azul-royal de sua aura: uma marca de proteção que a afastava do roxo agourento. Naquele momento, Livy não era apenas uma protegida; ela era uma devota. O prazer era o seu sacrifício, seu próprio corpo era o receptáculo da bênção, e o corpo de Ed, seu altar.

Ela desejava que aquele instante se eternizasse, pois sabia que, enquanto estivesse fundida a ele, a morte — por mais resiliente que fosse — teria que esperar sua vez de tentar se apossar de seu corpo, enfrentando o seu protetor que agora já possuía sua alma e sua devoção.

O casal seguiu em frente sob um trote intermitente, cortando a paisagem que mudava conforme se aproximavam do coração industrial da região.

Precisavam alcançar o próximo destino antes que a noite caísse por completo e as sombras se tornassem densas demais.

Livy montava com uma nova postura o garanhão tomado do balesteiro, sentindo a força do animal sob suas coxas, enquanto Ed, em sua própria montaria, levava a balestra e a aljava com os virotes como troféus de guerra presos à sela, símbolos de uma vitória que ainda ecoava no sangue.

A égua idosa, agora servindo de cargueira, seguia no mesmo ritmo, sem descanso, sentia-se livre finalmente, o trote era novidade para quem vivera em um eterno cativeiro.

... Continua...

imagem by: Pinterest.com

ARMADILHA DO TEMPO

Volume Um

O universo Shadow é um mergulho literário que vai além do inimaginável. Boa leitura!

Clique no link abaixo para CONTINUAR LENDO...