A INTELIGÊNCIA AMANTE: ONDE O PASSADO ENCONTRA O FUTURO

Esta história tem roteiro original e foi escrita para os nichos literários Hard Sci-Fi (Ficção Científica fundamentada), Romance Histórico/Épico e Romantasy (Romances maduros de fantasia/ficção). Nela há descrições de violência e conotação sexual. Não contém cenas explícitas, mas é recomendável para público adulto.

Capítulo 17

O colosso caiu

Do alto de sua montaria, Livy assistia a tudo paralisada, o ar preso em seus pulmões como se o próprio tempo tivesse coagulado, em um lapso de sobrecarga sensorial de êxtase e pavor.

Agora imaginem toda aquela cena de ação descrita a pouco em câmera lenta. Cada passo, a dança macabra da morte no tilintar dos choques entre espadas… tudo isso aconteceu em menos de dez segundos.

Ed caminhou até o colosso caído.

O homem gemia no chão, as mãos trêmulas e sujas de lama tentando segurar as setas de trinta centímetros cravadas até quase o limite em seu ventre volumoso, empurradas pelo peso do próprio corpo. Sua camisa tinha alguns botões de marfim estourados, e aos poucos se tingia de vermelho.

Pisando com força em sua virilha, esmagando sua virilidade sob a calça de pano caro, Ed fincou a espada na grama ao lado dele. Apoiou-se nela e abaixou o tronco sobre o moribundo para ouvi-lo melhor, o hálito de morte já se misturando ao nevoeiro.

— Então, ogro miserável... está satisfeito com o destino que sua arrogância e presunção lhe presenteou?

Ai! Ai! Ai!…. Poupe-me! Ajude-me, nobre senhor!

Implorou ele, a voz falhando e borbulhando com o sangue da hemorragia que subia à sua boca vindo do estômago perfurado.

— Eu... eu não tinha… não era minha intenção…

— O quê?!!! Não era sua intenção me matar?

Ed o interrompeu com um tom gélido que fez o homem soluçar.

— Não era sua intenção molestar aquela jovem ali???

— Não!... eu… eu cometi um erro!!! Eu não devia ter vindo… Milord… me arrependo de não ter lhe dado ouvidos… Sou muito rico, tenho posses… Posso lhe dar o que me pedir… Só me poupe! Por favor!…

Vendo que a jovem havia descido de seu cavalo e se aproximado com passos lentos, ele tentou uma última cartada desesperada:

My lady!… Me acuda!… Eu lamento muito!… Juro que vou me comportar… Vou te recompensar… Olha aqui!!! Fi… Fique com as moedas, pegue tudo, mas convença seu amante a me poupar… Eu tenho filhos pra criaaaar…

Seu choro era patético, uma sinfonia de covardia. Ed, com um sorriso impassível no rosto, dirigiu-se à jovem ao seu lado:

— E aí, Livy, o que acha? Você decide o destino dele.

E fez o gesto imortalizado no cinema quando retratava o fim das lutas de gladiadores, o polegar voltado para cima e dobrando para baixo.

Livy o encarou com um desprezo que parecia vir de séculos de humilhação. Sua voz saiu cortante como uma navalha afiada:

— Agora você pensa em seus filhos? Ed... sem piedade!

Pedindo para ela se afastar um pouco, Ed dirigiu a palavra ao homem que, jogado na lama e despojado de toda a sua altivez, via seu castelo de areia desmoronar ante uma onda inesperada.

Seus olhos estavam arregalados em súplicas por uma piedade que ele jamais demonstrou aos miseráveis que imploravam por migalhas à sua porta.

— Ouviu sua sentença, maldito?

Ed rosnou, a voz como um trovão baixo. Em seguida, entoou uma prece:

— “Senhor, encaminho esta alma para seu lugar de exílio eterno”

Falou como um juiz proferindo a ordem ao carrasco.

— “Estenda Sua mão misericordiosa à esposa dele, dando sabedoria e discernimento para que ela administre e faça prosperar o negócio da família sob suas rédeas. Amém!”.

Ele abriu os olhos e seu semblante se fechou de imediato; sua voz tornou-se sombria, quase desprovida de humanidade:

— Agora vou fazer um grande favor à sua família lhe eliminando da vida deles!

— Não!... por favor!... Me poupe… Tenha piedade!… M-me perdoe!

O homem engasgava no próprio pavor, o esfíncter cedendo sob o peso da morte iminente.

— Eu não sou santo, muito menos Deus!

Ed retrucou, os olhos fixos no covarde.

— Se O encontrar antes de entrar no inferno, talvez Ele te perdoe... mas não eu!

Ed posicionou a ponta da espada sobre o coração do homem e jogou o peso do corpo, enterrando o aço fundo, sentindo a resistência das costelas cedendo.

Manteve o olhar firme, encarando as pupilas do vilão até que o brilho da vida se apagasse e o silêncio finalmente reinasse na estrada.

Ele arrancou a lâmina com um som úmido e limpou o sangue na roupa do cadáver, agora nada mais que um fardo de carne despojado de toda a sua opulenta arrogância.

Livy sentia o cheiro metálico do sangue fresco e, acima de tudo, a visão daquela figura colossal que ela tanto temia e odiava sendo reduzida a um animal abatido por um homem que, momentos antes, lhe dava uma piscadela cúmplice.

Isso a fazia ter sentimentos jamais experimentados. Era uma mistura ambígua e violenta de querer pular sobre ele e de sentir uma reverência quase religiosa. Ela via em Ed não apenas um possível amante ou um salvador inequívoco, mas uma divindade vingadora que ludibriava a morte para mantê-la viva.

O medo do mundo exterior foi substituído por uma ternura interna selvagem por aquele Lobo que, por ela, transformou a estrada em um abatedouro.

Ela não entendia o que sentia, mas sabia que, se aquele homem pedisse seu coração em uma bandeja, ela o entregaria antes mesmo de ele desembainhar a espada.

Ed percebeu em Livy, parada ao seu lado, uma vibração diferente. A respiração estava curta, as faces coradas sob a luz suave da manhã. Seria apenas a adrenalina residual do combate, ou um desejo selvagem despertado pela demonstração de poder absoluto?

Ela teve nas mãos o fio que separava a vida da morte de um homem; um peso que muda o destino de sábios. Imaginem o que isso poderia causar em uma jovem que recém-descobrira como o calor e a pressão de um homem operam milagres no interior do seu próprio corpo?

Recuperando sua adaga da garganta do mercenário — que tinha o fenótipo e trajava o estilo exótico dos guerreiros árabes, justificando o porte da balestra, uma arma antiquada já para os padrões do século XVIII —, Ed limpou a lâmina e falou:

— Me perdoe por tanta brutalidade, Livy — disse ele, guardando as armas com gestos precisos

— Mas tiranos merecem morrer desta forma.

— Ele teve o que mereceu, e foi pouco... foi uma morte rápida, até! Deveria ter sofrido mais!

A voz de Livy carregava a dureza de quem já testemunhou, nas ruelas escuras, o que homens cruéis fazem quando possuem ouro ou poder. Ed encerrou a conversa de forma prática, não dando espaço para sadismos:

— Não temos tempo a perder com torturas. “O tempo é o bem mais precioso que existe e, uma vez perdido, jamais retorna”— Mais uma vez ele filosofou.

Aquela viagem o estava inspirando além da conta; seria a presença dela, ou a consciência da finitude que os cercava?

... Continua...

imagem by: Pinterest.com

ARMADILHA DO TEMPO

Volume Um

O universo Shadow é um mergulho literário que vai além do inimaginável. Boa leitura!

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