Esta história tem roteiro original e foi escrita para os nichos literários Hard Sci-Fi (Ficção Científica fundamentada), Romance Histórico/Épico e Romantasy (Romances maduros de fantasia/ficção). Nela há descrições de violência e conotação sexual. Não contém cenas explícitas, mas é recomendável para público adulto.


Capítulo 11
A noite do werewolf
Livy nem o questionou; levantou-se e deixou a manta cair aos seus pés, revelando-se por inteiro sob a luz tênue da lareira.
A timidez inicial parecia ter se dissipado no ar frio do estábulo. Seria a confiança crescente no homem à sua frente ou apenas o fato de que o medo da morte iminente era vastamente maior que o desconforto da nudez?
Ed, tentando manter a compostura e o profissionalismo diante de uma beleza tão singela, lutou contra seus próprios instintos enquanto o sensor processava os dados, mas não conseguiu silenciar por completo o seu lado humano:
— Que bom que está mais animada. Deixe o aparelho ler os dados... Hummm... Rosto delicado, traços eurasianos, quase asiático, olhos, nariz e boca pequenos... característicos... Seios médios e firmes... ventre plano e esguio, curvas suaves em transição para mulher adulta... tem certeza de que já tem dezoito anos mesmo? Pronto, frente escaneada. Agora, vire de costas!
— Engraçadinho!
Ela murmurou em um tom divertido, enquanto a luz do fogo desenhava sombras suaves em suas costas nuas. Ed passou o sensor do alto da cabeça aos pés e, ao abaixar-se para escanear as curvas das pernas, não resistiu ao comentário:
— Humm... Wow! Você tem um belo traseiro...!!!
— Pare de gracinha! Tire o olho, viu?
Ela retrucou, complementarmente com um sorriso que iluminava o rosto.
— Mas... não sei por que, sinto-me tão à vontade com você! — Em tom irônico, Ed concordou:
— Tão à vontade que até parou de me chamar de senhor... milorde... Isso é ótimo, sinal de que estamos criando intimidade! Agora, preciso de uma gota do seu sangue. Coloque seu dedo neste orifício... Vai ser só uma picadinha... Isso! Menina corajosa… Pronto, já pode retirar o dedinho. Deixe-me dar um beijinho nele. Olha, nem está sangrando.
— E nem doeu!
Respondeu Livy, animada com a súbita expectativa de uma sobrevida.
— Ótimo, terminou! Agora cruze os dedos e vamos esperar o resultado. Vista a manta e venha para debaixo da coberta comigo; se ficar em pé assim, pelada na minha frente, não sei quanto mais conseguirei resistir... Eu devo estar ficando mole, mesmo.
Livy vestiu-se e, encorajada pela fagulha de esperança, disparou:
— Independentemente do que aconteça, eu perco minha virgindade hoje, aqui!
Ela conseguiu deixá-lo corado. Um homem feito, com o corpo marcado por cicatrizes de batalhas reais, acabava de ser vencido por uma declaração inocente vinda de uma jovem donzela.
— Não sei se estou pronto pra isso... mas e você, está pronta pra ouvir a notícia? — Desconversou, tentando retomar as rédeas da situação.
Livy se encolheu em posição fetal, abraçando as pernas e cravando o rosto nos joelhos. A sentença de morte ela já conhecia; agora, esperava pelo milagre que a salvaria de seu destino cruel.
Naquela pequena concha humana que se formou na coberta sobre o feno, o mundo de Livy havia se reduzido ao som da respiração de Ed e ao zumbido eletrônico quase inaudível do aparelho.
Por trás das pálpebras cerradas, uma tempestade de sentimentos a trespassava: o terror gelado de se tornar apenas cinzas em uma fogueira lutava contra a chama nova que ardia em sua mente.
Ela se sentia no limiar de um abismo, mas, pela primeira vez, não estava sozinha na beirada; havia uma mão que a segurava com firmeza. Seria este o momento fatídico em que a jovem que roubava para comer morreria, dando lugar à mulher que escolhia a quem se entregar?
O medo da foice da morte era real, mas a segurança que emanava daquele protetor invencível a fazia acreditar que ele poderia, de fato, segurar o braço do próprio destino por ela.
Naquele silêncio antes da sentença, Livy não pedia apenas por anos de vida; pedia para que, naquelas últimas horas, ela pudesse finalmente saber o que era ser amada antes de deixar de ser uma lembrança esquecida no tempo.
Livy estende a mão em direção a Ed, um gesto de súplica desesperada. Ele a segura; sente que ela está gélida, como se a vida já estivesse se esvaindo por antecipação. Um sussurro trêmulo escapa de seus lábios:
— Não estou pronta!
A tensão era palpável, quase uma entidade onipresente ali dentro, representada pela figura do guerreiro que segurava o diagnóstico nas mãos. Seria a cura definitiva ou o veneno fatal?
— Mas diga logo! Deixe de suspense. Sem enrolação, por favor…
Ed, querendo aliviar a carga dramática que esmagava o peito da jovem, respondeu com um meio sorriso:
— Tirando uma colônia de parasitas na sua cabeça... está tudo certo com você!
— Uhhhuuuu!
Ela soltou um grito alto de alegria genuína.
Um cachorro moribundo latiu ao fundo, no quintal vizinho, reagindo assustado ao uivo dela na madrugada gelada.
Livy tapou a boca rapidamente, lembrando que todos dormiam, menos eles.
A chuva agora era apenas uma garoa fina, dando uma trégua e deixando apenas o ruído intermitente da água que ainda pingava dos telhados. Animada, ela se lançou sobre ele, agarrando seu braço:
— E agora? Quais são os próximos passos? Você disse que pode me ajudar a burlar a morte!
— Eu disse que havia uma chance remota. Agora que a metade irremediável foi vencida, as possibilidades de sucesso aumentaram. Vou te ajudar a... Ei! Calma! — Ed sentiu o corpo dela sobre o seu.
— Se ficar assim em cima de mim, só com essa manta aberta e toda desprotegida, a cobra vai achar sozinha a entrada da toca…
— Mas é justamente isso que eu quero! Já passou da hora!!! — ela retrucou, confiante e ansiosa.
— Está nas suas mãos se eu vou ou não morrer; minha pureza a terra não há de comer. Eu não vou levar esse selo lacrado comigo!
— Tá certo...!!! Mas antes... vou emitir uma onda sonora de altíssima frequência que eliminará esses parasitas de sua cabeça. Tudo bem? Agora, fique de costas para mim.
Ela obedeceu. Ed levantou-se e o aparelho zuniu um som inaudível para ouvidos humanos, mas a cachorrada nos arredores, sensível à frequência, latiu em uníssono. O efeito foi em cascata: até uivos de lobos foram ouvidos nas florestas nos arredores de Rochdale.
Esse fenômeno seria registrado em gazetas e pasquins da época como “A Noite do Lobisomem”.
O medo e o misticismo fizeram com que muitos jurassem ter visto vultos de uma criatura descomunal esgueirando-se pelos becos e saltando cercas com agilidade sobrenatural.
Tais relatos fariam até os mais corajosos se enfiarem sob os lençóis, virando assunto por meses.
É assim que nascem as lendas.
... Continua...
imagem by: Pinterest.com
ARMADILHA DO TEMPO
Volume Um


O universo Shadow é um mergulho literário que vai além do inimaginável. Boa leitura!
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