A INTELIGÊNCIA AMANTE: ONDE O PASSADO ENCONTRA O FUTURO

Esta história tem roteiro original e foi escrita para os nichos literários Hard Sci-Fi (Ficção Científica fundamentada), Romance Histórico/Épico e Romantasy (Romances maduros de fantasia/ficção). Nela há descrições de violência e conotação sexual. Não contém cenas explícitas, mas é recomendável para público adulto.

Capítulo 10

Nasce uma esperança

— Nossa!... Que lindo! Tudo está claro como o dia… Vixe! Olhei para a parede do outro lado e minha visão me levou para pertinho dela... E... o que é isso em sua volta? Tem uma luz azul pulsante... Também vários símbolos piscando, coloridos... números... letras... O que é tudo isso?

Ed explicou com paciência, seu intuito era tentar reconfortá-la.

— Essa luz que você viu ao meu redor é a minha aura energética.

Ele observou pela lente ao colocá-la no rosto de Livy que o brilho que a envolvia tinha mudado suavemente de tom. O roxo fúnebre que ela ostentava se transmutou para uma cor púrpura-profundo. Era ainda muito próximo do sinal de maus presságios, mas algo nela estava mudando.

— Está vendo essas informações pequenas no canto direito? O que mostram para você?

— Muitos números, nem consigo contar. Não tenho estudos para isso, mal sei ler... O que significam?

— É o relógio que mede o tempo que me resta. Se você pudesse ver o seu — e essa é uma das regras inquebrantáveis —, ele mostraria que, agora, após a meia-noite, você tem menos de quarenta e oito horas restantes. Lamento…

Livy desabou em um choro compulsivo. Suas lágrimas escorriam em cascata sobre a pele alva. A verdade doía, e seus olhos verteram feito a chuva que seguia intermitente lá fora. Para alguém que não aproveitara nada da vida, aquilo era uma catástrofe.

Ed a abraçou. A revelação brusca, fria como um diagnóstico mecânico, estilhaçara de vez o estado emocional de Livy. A rígida disciplina militar o havia talhado para eliminar ameaças sem hesitação, mas o isolamento imposto pela sociedade asséptica do futuro operara um efeito colateral drástico: retirara dele o tato, a diplomacia e a sensibilidade para lidar com a fragilidade de uma alma analógica. Para Ed, quarenta e oito horas eram um dado estatístico; para Livy, era o fim do frágil mundo dela.

Ela afundou o rosto em seu peito; seus braços finos e delicados não conseguiam fechar o abraço completo, mas suas unhas, como se quisessem puni-lo pela crueldade do destino, tentavam se cravar como adagas em suas costas.

Entre soluços abafados pela musculatura peitoral dele, saiu um apelo febril:

— Não pode fazer algo por mim? Me ajudar? Eu não quero morreeer!

O choro de Livy não era apenas um lamento pela morte, era o grito de uma alma que acabara de descobrir o paraíso e percebia que o portão estava se fechando antes mesmo de ela atravessar o umbral.

Naquele instante, ela sentia o peso de cada dia de fome, de cada noite de frio nas ruas de Rochdale, tudo subitamente condensado em uma urgência insuportável.

Era como se o seu sangue, agora ciente da brevidade, corresse mais rápido, queimando as veias em um último protesto contra o vazio.

O peito de Ed era o seu único porto, mas também o altar onde ela via o sacrifício de seu amanhã. Suas unhas cravadas nele eram o símbolo de quem se afoga e tenta se segurar na única rocha que parece sólida em um oceano de esquecimento.

O soluço de Livy era de cortar o coração. Ela, tão jovem e linda... Mas era o seu destino, e Ed sabia, com a frieza de quem já viu impérios caírem, que não deveria interferir.

Mexer na linha temporal é como puxar um fio solto em um castelo de cartas: você acredita estar apenas removendo uma imperfeição, mas o atrito pode fazer tudo ruir, colapsando eventos a quilômetros de distância, com efeitos em meses, anos ou décadas após, quando um casamento desfeito por consequência disso, impede nascimentos ou transforma heróis em tiranos em um futuro que ainda nem respirou.

Salvar uma alma anônima, sem laços ou rastros na história, pode parecer inofensivo — um ruído branco no vácuo do tempo — contudo, o inócuo não existe para a causalidade; cada vida poupada ou tirada fora de ordem é um deslocamento de ar, uma nova variável que obriga o universo a recalcular sua rota.

O preço de uma vida insignificante como a da pequena ladra de Rochdale, pode ser o colapso de uma linhagem inteira séculos depois.

— Livy, não vejo como… Ops!… Espere aí!!!

Um lampejo genial estalou na mente do navegante temporal, como se um bloqueio preventivo houvesse se rompido sob a pressão daquele choro.

— Não há nada… exceto se!... Hummm!!! Talvez haja uma saída! Deixe-me calcular os riscos... Não posso cometer os erros do passado!

— Pode me ajudar??? Eu... eu faço qualquer coisa!

Exclamou Livy, percebendo que seu salvador buscava soluções genuínas para arrancá-la de seu destino sombrio.

— Shhhhhh! Silêncio!!! Deixe-me pensar!... Sim... é, pode dar certo!... Mas é apenas uma possibilidade... Tenho que tentar!... mas... e se...? Hummm! Não!... acho que não!…

Ele caminhava em círculos, conversando consigo mesmo... Em quarenta e oito horas, ela poderia morrer a qualquer momento.

Se ela entrasse em pânico e espalhasse pela vila industrial que podia prever a própria morte, a turba ignorante de Rochdale a lincharia como uma demente ou uma amaldiçoada purulenta, apavorados pela epidemia de varíola que já infestava os cortiços.

E como culpá-la? Como ela suportaria sozinha tal fardo?

O medo coletivo era uma força violenta e, com os ânimos exaltados pelo inverno rigoroso, encontrar um bode expiatório era a válvula de escape perfeita que os governantes usariam sem medida para acalmar o povo desesperado.

Finalmente, ele parou diante dela:

— Existe uma chance remota de driblar o destino — disse ele, pegando o aparelho ressonador temporal das mãos dela.

— Deixe-me fazer uns ajustes... Pronto! Ele agora é um scanner espectral, um leitor que encontrará qualquer patologia em você.

Mesmo esperançada, a jovem temia o objeto estranho que agora vibrava nas mãos dele com uma nova intensidade.

— O que exatamente vai fazer com ele? Está fazendo uns ruídos esquisitos…

Ed a tranquilizou, oferecendo-lhe esperança, mas sem promessas vazias:

— É só uma teoria que acabei de criar, mas vale a pena tentar.

Ed tentou ser bem didático: se ela tiver uma doença incubada que vá lhe matar nos próximos dois dias, nada poderá fazer; isso é um processo biológico inevitável.

Seu tom inicial foi sombrio, mas logo seus olhos brilharam com uma fagulha de desafio.

— Mas, se não houver nenhuma doença terminal em você, sua morte será violenta: um acidente, uma lâmina ou um disparo. Aí o jogo muda. É comigo. Posso ser a barreira entre você e a morte.

Ele sabe que pode tentar intervir para evitar o golpe fatal, e que se tomar os cuidados certos e seguir o plano, que ainda é rascunho em sua cabeça, os riscos que suas ações possam desencadear uma reação em cadeia na malha do tempo podem ser minimizados.

— Foda-se!

As missões dele ao passado nunca foram para impedir fatos, no máximo retardam ou atenuam efeitos… mas se der certo, conquistará o impossível.

Livy sentiu um arrepio que não vinha do frio do estábulo. O destino agora tinha um rosto e uma voz, além um corpo esbelto, em pé bem ali na sua frente.

— Agora, deixe-me te escanear. Levante-se já e tire a manta. Fique completamente pelada!

... Continua...

imagem by: Pinterest.com

ARMADILHA DO TEMPO

Volume Um

O universo Shadow é um mergulho literário que vai além do inimaginável. Boa leitura!

Clique no link abaixo para CONTINUAR LENDO...