A INTELIGÊNCIA AMANTE: ONDE O PASSADO ENCONTRA O FUTURO

Esta história tem roteiro original e foi escrita para os nichos literários Hard Sci-Fi (Ficção Científica fundamentada), Romance Histórico/Épico e Romantasy (Romances maduros de fantasia/ficção). Nela há descrições de violência e conotação sexual. Não contém cenas explícitas, mas é recomendável para público adulto.

05- Acompanhante de risco

Pouco depois, sob uma área coberta e bem iluminada por archotes que projetavam sombras nítidas nas colunas de pedra, o boticário veio recebê-lo.

Para a surpresa de quem esperava um velho curvado entre frascos, ele era um homem notavelmente jovem e de uma beleza rústica e marcante. Seus cabelos eram escuros e bem cortados, e a barba, curta e desenhada, emoldurava um rosto de traços aristocráticos.

Trajava-se com uma elegância superior àquela vila lamacenta, vestindo uma casaca de veludo impecável sobre um colete brocado e camisas de linho fino que denunciavam uma posição social privilegiada — provavelmente o herdeiro precoce de um negócio próspero e de uma profissão cujos segredos o pai lhe passara, legando o ofício antes do tempo.

Ele conferiu a carga nas bolsas descarregadas com movimentos ágeis, pagou a remessa de medicamentos com uma bolsa de moedas de som tilintante e lhe repassou um “bastão de mensagens” hermeticamente fechado.

Ed conferiu o nome codificado do destinatário — um símbolo cheio de significados ocultos — e assentiu com um leve aceno de cabeça. Antes que saísse, o físico municipal, com um meio sorriso que revelava sua curiosidade, perguntou onde o viajante passaria a noite.

— Vamos para a estalagem. Viajarei cedo pela manhã.

— Não precisa! Fique no estábulo! Lá pode alimentar seu belo animal, acender a lareira e dormir sobre o feno seco!

Ed aceitou a oferta. Sair para a escuridão em busca de um dormitório, com tantos larápios lá fora aguardando uma oportunidade, era arriscar demais a sorte. Porém, o boticário, cujos olhos agora desciam para a figura miúda ao lado do cavaleiro, perguntou com desdém:

— E essa mocinha?— Ed respondeu, incisivo e sem desviar o olhar:

— Ela está comigo. Me fará companhia no frio desta noite!

Acenando a mão com um gesto de descaso, o médico deu uma ordem de despejo velado:

— Despache-a! Arrumo-lhe uma de minhas serviçais que lhe servirá muito melhor. Saiam aí de trás, bando de sirigaitas atrevidas! Parem de olhar e cochichar… hora de trabalhar!!! Venham aqui na frente. Vocês não adoram uma novidade?

Ao comando do senhor, dez mulheres emergiram das sombras dos corredores laterais. Eram sete delicadas jovens e três mulheres mais experientes, porém lindas, todas exibindo um brilho de antecipação nos olhos.

Para elas, o boticário, jovem e de beleza rústica, era um mestre que as apreciava em um rodízio constante em seus lençóis, e a chegada de um forasteiro imponente como Ed era o evento do mês.

Elas se apressaram a perfilar, uma ao lado da outra, animadas, ajeitando os decotes e lançando olhares convidativos.

— Escolha quantas achar que dá conta — continuou o anfitrião, exibindo suas "propriedades" com orgulho.

— São jovens limpas, saudáveis e cheirosas, sem riscos de lhe transmitir alguma enfermidade contagiosa carnal!

Ed o interrompeu. Sua resposta imediata foi como um balde de água gelada sobre o grupo. O semblante animado das serviçais desmoronou em uma fração de segundo, substituído por caras de frustração e bicos de desapontamento.

— Não há necessidade... Vou continuar com a jovem aqui ao meu lado! Agradeço a oferta. Há algum problema nisso?

— Nãooo! Gosto é gosto! Talvez tenha fetiche por emoções fortes e prefira viver perigosamente. Só proteja bem seu pagamento! Hahaha! Vou providenciar algo para comerem.

— É muita gentileza sua!... E não se preocupe! Da minha segurança, cuido eu!

Ed perguntou a direção dos estábulos.

— Siga pela sua esquerda e a verá a trinta jardos, nos fundos. Fiquem à vontade, ninguém os importunará! Desejam alguma coisa...? Quem sabe uma pomada "milagrosa” ou um óleo “facilitador”…

Ed percebeu a malícia nas palavras, mas não se abalou:

— Preciso de sabão! Serve tanto de “facilitador”, caso a “passagem” seja muito apertada, como também para lavar minha roupa. Estou curioso para ver o que se esconde debaixo de toda a sujeira que cobre essa jovem!

Seu anfitrião gargalhou com gosto da resposta pragmática.

— Vou mandar levar o sabão. Boa noite e boa sorte!

— Agradeço desde já pela refeição ofertada e pela ótima acolhida.

O boticário, ordenando que levassem as bolsas com os medicamentos para dentro, respondeu:

— Eu sou quem agradeço! Vieram em boa hora esses unguentos. Alguns deles eu já não tinha há meses. O que mais precisar, é só falar.

— Me consiga duas cobertas limpas e secas, por favor. A minha está molhada e, nesse frio, não servirá para nada!

— Aguarde, que será providenciada.

A jovem suja e desleixada — não por descuido pessoal, mas pelo açoite da vida — que até então se encolhia sob o peso dos insultos do porteiro, do desprezo do homem da medicina e dos olhares de nojo das dez serviçais, sentiu um choque elétrico percorrer sua espinha ao ouvir a negativa seca de seu protetor.

Ela olhou para as dez mulheres perfiladas — flores cultivadas, limpas e perfumadas, todas preteridas por ela — e, em seguida, baixou o olhar para as próprias mãos enrugadas pelo frio e calejadas, com as unhas quebradas e a sujeira impregnada até as cutículas.

Por um segundo, a lógica da sobrevivência falhou; o natural seria ser descartada como um fardo inútil, mas, em vez disso, ela foi escolhida, reivindicada com a posse de quem acabara de achar um tesouro oculto sob a lama.

Seus olhos orientais pequenos se fecharam e uma lágrima teimosa rolou por sua face suja, — misturando-se às gotas da chuva que há pouco lhe molhava inteira — embora ela tentasse contê-la, seu rosto, antes nublado pelo cinismo das ruas, brilhou com uma mistura de assombro e uma gratidão tão profunda que beirava a dor.

Ela não era mais uma simples guia ou uma ladra oportunista naquele momento; era a preferida de um homem que não se dobrava às convenções.

No silêncio de sua mente, ela prometeu a si mesma que, se ele queria ver o que se escondia debaixo daquela sujeira, ela permitiria e até lhe entregaria não apenas a pele limpa, mas uma lealdade que nenhum ouro naquele século seria capaz de comprar.

Eles se dirigiram calados para os fundos da propriedade, Ed puxando seu cavalo e a jovem logo atrás dele, caminhando ao lado do belo animal.

Nesses tempos difíceis, é raro encontrar tanta amabilidade; as pessoas estão sempre desconfiadas e prontas para revidar com violência qualquer ato que fuja do trivial, então ele agradecia mentalmente a forma como o seu anfitrião o recebera.

Enquanto organizava a lenha e acendia o fogo, duas das jovens que há pouco perfilaram, esperançosas pela atenção dele, trouxeram um pedaço robusto de sabão e duas cobertas.

Ed foi até elas e agradeceu a boa vontade, sendo avisado de que a comida logo seria servida ali mesmo no estábulo; também informaram que o casal teria privacidade e um bom tempo para se limpar antes do alimento ficar pronto.

Já sem camisa, as deixou atônitas ao expor sua musculatura peitoral e abdominal bem definidos, com bíceps e tríceps trabalhados. Ele não deixou de notar os olhares cobiçosos; elas se foram antes de terem um verdadeiro orgasmo com os olhos.

Fogo aceso e lenha queimando firme, ele limpou um canto externo da sujeira e de algumas tralhas jogadas, criando um chuveiro improvisado sob uma biqueira de água que jorrava.

A jovem, timidamente, despiu seu vestidinho surrado, ficando apenas em uma peça íntima encardida. Seus seios pequenos e delicados ainda não estavam à mostra, pois ela tentava ocultá-los com os braços em cruz, encolhida sobre eles.

Ela enfiou a cabeça debaixo da água geladíssima, soltando um gritinho agudo. O barulho da chuva impedia qualquer um de ouvi-los; se pudessem, pensariam que o “urso acabou de entrar na caverna”.

... Continua...

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