A INTELIGÊNCIA AMANTE: ONDE O PASSADO ENCONTRA O FUTURO

Esta história tem roteiro original e foi escrita para os nichos literários Hard Sci-Fi (Ficção Científica fundamentada), Romance Histórico/Épico e Romantasy (Romances maduros de fantasia/ficção). Nela há descrições de violência e conotação sexual. Não contém cenas explícitas, mas é recomendável para público adulto.

04- A pequena ladra

EdiNuñez puxou os arreios do cabresto do cavalo e preparava-se para partir, quando a jovem se colocou abruptamente na frente do animal, quase sendo pisoteada pelos cascos que golpeavam a lama.

— Mas essas ruelas são perigosas, moço. Eu conheço cada canto escuro, sei onde os ladrões se escondem à espreita... Por favor!…

Sem paciência e com o tempo correndo contra seus objetivos, EdiNuñez fala de forma ríspida:

Eu sei me cuidar!!! Saia da frente e vá embora!!!

Ela, em um gesto de desespero, atira-se e agarra-se à perna dele sobre o estribo como se ele fosse sua única tábua de salvação, implorando com o que restava de sua dignidade:

— Posso ser mais útil, p-posso fazer... “aquelas coisas” com o senhor... Não vai se arrepender...!

Olhando aqueles olhos tristes e emoldurados pela sujeira, o coração dele amoleceu — só um pouquinho — mas somente porque outra coisa endureceu.

A ideia de ter alguém lhe aquecendo durante a noite gélida o fez reconsiderar, embora ela parecesse franzina demais, pouco maior que uma jovem desnutrida. Ele voltou a questioná-la, movido agora não por honra, mas por uma ética prática:

— Não me disse sua idade…

— Não pareço, milorde, mas minha mãe disse que nasci em dezembro e já fiz dezoito no fim do mês passado. Sou apenas magrinha, mas já sou mulher feita…

Ed sente uma pontada de pena, mas sua mente analítica sabe que a única intenção real dela é conseguir uma oportunidade para surrupiar o resto das moedas de ouro que acenderam sua cobiça.

Seria uma briga de egos: enquanto o gato pensa em comer a rata, a rata planeja roubar o gato. Suspirando, ele finalmente assentiu:

— Tudo bem! Fique de costas para mim e levante seus braços. Vou erguê-la até aqui.

Ed a pega com facilidade, notando como ela pesava quase nada, e a puxa para cima, colocando-a de pernas abertas, acochada contra seu abdômen, entre ele e o pescoço do animal.

Ela, de imediato, reclama do arranjo:

— Na sua frente? Não vou na sua garupa?

Ele retruca, direto e seco, enquanto firma as rédeas:

— Não!!! Ou isso, ou pode descer! Não vou te dar a chance de meter as mãos no meu bolso!

Ela respondeu sem qualquer convicção, desviando o olhar:

— Não quero lhe roubar... Juro!

A resposta dele a desmontou de vez:

— É sério mesmo? E essa bolsa de moedas que você acabou de tirar do gordo lá dentro...?

Ela se calou. O silêncio foi sua única resposta, sem argumentos para contrapor a observação aguçada do forasteiro. Ed suspira; “quem cala consente”, como diz o ditado.

Eles começam a andar, partindo dali antes que o gordo bêbado desse falta do seu dinheiro e saísse pra fazer confusão na rua.

A escuridão caiu rápido.

O crepúsculo sob as espessas nuvens de chumbo bloqueava qualquer indício de luz solar que ainda se atrevesse a existir naquele lugar esquecido por Deus.

Dobraram a esquina e seguiram reto, onde esparsas luminárias a óleo de colza de baixa qualidade conferiam ao ambiente um ar sinistro e fantasmagórico.

Foi então que a jovem sentiu algo incomodá-la.

— Ei! O que é isso me cutucando aí embaixo?

— Lamento, mas você está sentada sobre minha “espada”. Ela tem vida própria e nada posso fazer a respeito! Se quiser culpar alguém, culpe o cavalo e o balanço da cavalgada!— logo assumindo as rédeas:

— Mas... por que o espanto? Não me ofereceu os seus “préstimos”?

— Herr!!!... Sim!... mas.... Eu pensei... Humpft!— suspirou ela, ajeitando-se inutilmente.

— É logo ali, naquela outra esquina. Dá para ir mais rápido?

Ed, divertindo-se com a situação, mas visivelmente excitado, brincou com o desconforto dela:

— Se eu acelerar o galope, nem adianta você continuar se apoiando nas minhas pernas para se afastar da “cobra”... vai cair direto sobre ela! Hahahaha!

Mal chegaram ao destino e a garota apressou-se em pedir para descer, saltar daquela situação embaraçosa quase antes do cavalo parar totalmente.

— Chegamos! É aqui! Por favor, me desça, rápido! Vamos moço, antes que eu seja “esfaqueada” por baixo!... Humpft!

Ed solta uma gargalhada contida; não era sonora, apenas uma vibração divertida no peito.

Ele não queria chamar a atenção de ninguém nas casas próximas, mas a pequena ladra já havia conseguido algo raro: fazê-lo rir naquele século sombrio.

EdiNuñez salta pesadamente da sela e a ajuda a descer, devagar, segurando-a pela cintura e deixando-a escorregar pelo seu dorso até ela perceber, no vão de suas pernas, o “instrumento rígido” dele.

Ela fica ruborizada quando sente o “volume” e a intenção do cavaleiro e se projeta em um impulso súbito, empurrando-se para trás após bater suas mãos com uma firmeza espantosa contra o peito do Ed; ela só não caiu de bunda na lama viscosa porque ele, com reflexos de aço, a segurou firme pelas mãos estendidas.

Ela tentava se soltar, um pânico genuíno estampado em seu rosto maltratado.

— Vou te soltar... você vai fugir?

Ele sustentava um sorriso cínico e divertido. Tinha certeza resoluta de que ela escaparia, e talvez até esperasse que ela corresse para a escuridão, dando por encerrada aquela distração perigosa.

— Não, meu senhor. Vou ficar! Não vou fugir. Juro!

Para a surpresa dele, ela firmou os pés no chão e prometeu lealdade. Ed percebeu o brilho astuto no olhar dela; ela não ficaria pelo prazer da companhia, mas porque já havia mapeado exatamente em qual bolso as moedas de Guiné repousavam.

Ele assente, o sorriso ainda brincando nos lábios, e pede que ela segure o arreio do cavalo.

Ed caminha até a entrada principal e bate com firmeza na aldrava de ferro da pesada porta de madeira. Não demorou para que uma pequena claraboia se abrisse no nível dos olhos.

Um serviçal de rosto amargo perguntou o que queriam, em um tom de voz que carregava toda a arrogância de quem serve a um senhor poderoso.

Após Ed se identificar e mostrar estrategicamente o conteúdo de uma das bolsas, o som de trincos pesados ecoou e o portão foi finalmente aberto.

A residência do boticário surgiu diante deles como um oásis de ordem em meio ao caos de Rochdale.

Era uma construção imponente, de pedra sólida e vigas de carvalho escuro, com uma área de recepção ampla e bem iluminada por lanternas de óleo que não soltavam a fumaça barata da taverna. O chão de terra batida do pátio interno era limpo e nivelado, ladeado por outras pequenas habitações que serviam aos empregados.

Ao fundo, para além da luz das tochas, a escuridão engolia o quintal vasto, onde apenas o contorno de um estábulo e o cheiro de ervas secas indicavam o local de trabalho do Físico Municipal.

Ed adentra o pátio puxando seu cavalo, mas o serviçal, em um movimento abrupto e carregado de preconceito, tenta barrar a passagem da garota, proferindo insultos que cortavam o ar:

— Sai daqui, sua porca imunda! O que está pensando? Acha mesmo que uma carcaça de rua como você vai entrar na casa de meu senhorio?

A intervenção de Ed foi imediata e brutal.

Antes que o homem pudesse sequer tocar nos farrapos da jovem, Ed desferiu um “safanão” violento com o antebraço e, usando o impulso do próprio corpo, atingiu o peitoral do serviçal com o ombro. O impacto jogou o homem com violência contra o portão de madeira, que estremeceu com o baque.

O cavalo se assustou com o movimento súbito e quase empinou, irritando ainda mais o cavaleiro. Após conter o animal com um puxão seco nas rédeas, Ed se dirigiu ao serviçal, apontando os dedos em riste a milímetros do rosto pálido do homem:

— Não ouse sequer tocar nela! Ela está comigo e será minha companhia esta noite!

Assustado com a força desmedida e o olhar gélido do estrangeiro, o homem se desculpou entre dentes, baixou a cabeça e aguardou que ambos passassem para poder fechar o portão.

A jovem o seguiu em silêncio, cabisbaixa para esconder o semblante, mas havia uma satisfação contida que aquecia seu peito mais do que qualquer fogueira.

Em toda sua triste e violenta vivência nas ruas, jamais alguém tentara sequer conversar com ela de igual para igual, muito menos defendê-la com tamanha ferocidade.

Pela primeira vez, ela não se sentia mais uma mera "rata" invisível; ela agora era alguém sob a proteção de um herói.

... Continua...

imagem by: Pinterest.com

ARMADILHA DO TEMPO

Volume Um

O universo Shadow é um mergulho literário que vai além do inimaginável. Boa leitura!

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