Esta história tem roteiro original e foi escrita para os nichos literários Hard Sci-Fi (Ficção Científica fundamentada), Romance Histórico/Épico e Romantasy (Romances maduros de fantasia/ficção). Nela há descrições de violência e conotação sexual. Não contém cenas explícitas, mas é recomendável para público adulto.


03- A taverna
O período invernal em tempos de guerra traz consigo mais que o frio cortante; traz doenças como a varíola, que se proliferava feito gafanhotos famintos nas lavouras de trigo, e todos, do camponês ao lorde, estavam expostos à sua carícia mortal.
EdiNuñez se aproxima e, mesmo do lado de fora da taverna, já ouve a cantoria ébria da horda de bêbados, valentões e larápios que se acotovelam lá dentro. Eles disputam canecas sebosas com uma cerveja que mais parece mijo de cavalo e vinhos de qualidade duvidosa, o barulho da algazarra servindo como um manto que encobre o som dos cascos do cavalo do viajante sobre a lama.
A companhia ali dentro é torpe.
O odor de hálitos pútridos, misturado ao bafo pesado de fumaça ácida dos cachimbos de argila e ao ranço da bebida barata, é de dar náusea a quem não tenha estômago forte.
Mas ali, em uma vila esquecida na fria região noroeste, a um dia de cavalgada de Manchester... quem se importa com a higiene ou com a alma?
Ed chega à entrada. Ao saltar do animal, suas botas afundam no lodo viscoso, espirrando lama escura contra as paredes de pedra úmida.
Ele amarra o cavalo pelo arreio a um poste lateral e empurra a porta de madeira pesada com um baque seco. O pesado trinco de ferro bateu, ecoando um ruído surdo que anunciou a entrada do estranho.
O riso e a algazarra cessam no mesmo instante, cortados como por uma navalha.
Todos os olhares cobiçosos e carregados de suspeita se voltam para o homem que adentra o recinto, completamente indiferente ao escrutínio alheio. Visivelmente, o forasteiro é um estrangeiro e, em Rochdale, não ser dali significa, por decreto silencioso, não ser bem-vindo.
EdiNuñez não evita os olhares por receio, mas simplesmente porque não tem interesse em ninguém naquele recinto imundo, além do mal-encarado barman que, atrás do balcão, limpa o buraco do nariz com algo mais sujo que um pano de chão, logo após enxugando o interior de uma caneca sebosa com ele.
Com um charuto grosso e apagado no canto da boca, revelando dentes amarelados e gastos, o homem solta uma lufada de um bafo medonho antes de perguntar:
— Cerveja ou vinho, forasteiro?
EdiNuñez pousa uma das mãos enluvadas no balcão de madeira encardida e responde com uma voz firme, que corta o silêncio da taverna como aço:
— Informação. E vou pagar por ela.
Ele empurra um penny de cobre em direção ao atendente truculento. O homem apanha a moeda e, mesmo sendo de um valor comum, percebe de imediato sua cunhagem excepcionalmente nítida, um relevo que não condiz com as moedas gastas que circulam por ali.
Ele testa a autenticidade pesando-a na palma da mão calejada e mordendo o bordo para sentir o gosto do metal. Sob os olhares silenciosos dos presentes, que o dissecam de cima a baixo como urubus avaliando uma carcaça, Ed faz a pergunta pela qual pagou:
— Onde posso encontrar o Físico Municipal do vilarejo?
O taberneiro hesita, os olhos estreitados em fendas de pura desconfiança. Ele cospe um catarro escuro para o lado e interroga, elevando a voz para que todos ouçam, buscando apoio na turba:
— O que quer com o “Sawbones”? Por acaso está carregando a varíola sob essa capa? Estrangeiros sujos como você trouxeram essa praga à nossa porta, essa maldita que devora um homem ainda vivo!
O silêncio agora era absoluto, denso como breu.
A menção à varíola — a doença que não apenas matava, mas apodrecia o infeliz enquanto ele ainda respirava, deixando nos sobreviventes marcas de uma monstruosidade eterna — fez o medo superar a curiosidade.
Os mais próximos já sacavam suas adagas, levantando-se dos bancos com o ruído de madeira arrastada, prontos para expulsar ou eliminar o possível portador da peste. EdiNuñez manteve-se calmo; não moveu um único músculo.
Com o cotovelo apoiado na madeira do balcão, ele até engrossou mais o tom de voz, fazendo-a ressoar com autoridade:
— Sou um mensageiro — declarou Ed, sua calma gelada contrastando com os ânimos latentes que eletrizavam o ar.
— Trouxe medicamentos raros para abastecer o estoque da botica. Se quiserem que o senhor da medicina tenha como salvar vossos filhos quando a próxima febre chegar, sugiro que guardem o aço de volta na bainha.
Os ânimos se acalmam gradualmente, embora a desconfiança ainda pairasse no ar como uma névoa tóxica. Os homens voltam aos seus "entretenimentos" torpes.
Um deles, gordo e de aspecto asqueroso, segura o braço de uma jovem franzina, de cabelos desgrenhados e vestes surradas; ele a puxa para si, tentando beijá-la à força sob as gargalhadas e incentivos dos colegas de copo.
O cavaleiro, porém, não intervém. Seu trabalho é apenas entregar a encomenda e seguir seu caminho. A varíola era cruel, mas alguns homens conseguiam ser bem piores.
Ele recebe a informação e sai da taverna sem olhar para trás, ignorando o bafo quente e fétido que deixava para as suas costas.
Ao chegar junto ao cavalo, EdiNuñez já posicionava o pé no estribo quando a garota surgiu correndo pela penumbra.
De alguma forma, ela havia escapado das garras do bêbado corpulento, mas não sem antes lhe causar um imenso prejuízo; certamente, no meio do puxa e empurra da tentativa de abuso, ela passou a “mão leve” e o fez perder a bolsa de moedas.
Muito esperta!
Retendo o fôlego e com o peito arfando pelo esforço, ela conseguiu falar:
— Milorde... meu senhor, espere! Posso lhe levar até a casa do boticário por uma moeda...? Por favor!?
Ed olha para baixo, o rosto parcialmente oculto pelas sombras da capa, e tenta ignorá-la. Mas ela insiste, os olhos brilhando com uma urgência que mistura fome e medo.
Ele, então, a questiona:
— Quantos anos você tem? Não devia estar em casa, abrigada do frio junto de sua família?
Ela respondeu de pronto, a voz trêmula não apenas pelo receio do estranho, mas pelo frio cortante que atravessava suas vestes rasgadas:
— Moro na rua, meu senhor. Eu como o que consigo pegar do chão. Não tenho quem cuide de mim…
Não havia como ser impiedoso diante de um lamento desses, um subproduto cruel do flagelo da guerra. Muitas jovens haviam ficado órfãs nas sarjetas, à mercê do infortúnio da fome e do destino sombrio da prostituição por migalhas.
Movido por um lapso de humanidade, Ed enfia os dedos em um bolso interno de sua casaca, abaixa-se, estende a mão enluvada e lhe entrega uma Guiné reluzente — uma moeda de ouro com alto valor de compra naqueles tempos de escassez absoluta.
— Tome esta moeda e a esconda bem! Saia já da rua, consiga algo para comer, compre roupas novas e procure um abrigo seguro para se aquecer. Eu consigo achar o caminho do boticário sozinho!
... Continua...
imagem by: Gemini AI
ARMADILHA DO TEMPO
Volume Um


O universo Shadow é um mergulho literário que vai além do inimaginável. Boa leitura!
Clique no link abaixo para CONTINUAR LENDO...
Navegue
Explore em breve nossas redes sociais
Contact
FALE COM A GENTE
suporte@sphinx-hub.com
© 2026. All rights reserved.
