Esta história tem roteiro original e foi escrita para os nichos literários Hard Sci-Fi (Ficção Científica fundamentada), Romance Histórico/Épico e Romantasy (Romances maduros de fantasia/ficção). Nela há descrições de violência e conotação sexual. Não contém cenas explícitas, mas é recomendável para público adulto.


Capítulo 14
A insaciável sede da morte
Retornaram para perto dos serviçais. As jovens a ajudavam a subir no estribo. Livy jamais possuíra um cavalo; quando criança, cavalgava em potros que acompanhavam as caravanas ciganas ou viajava dentro de carroças. A despedida do boticário foi uma ovação à sua metamorfose:
— Parabéns, amigo! Tem bom gosto. A mocinha, depois que a sujeira saiu, mostrou-se magnífica. E, pela cara de felicidade dela, a noite foi boa mesmo...!!! Hahahaha! — E complementou:
— As roupas de minha sobrinha ficaram perfeitas nela. Com a capa e o capuz, ela parece outra pessoa. Está altiva, imponente... uma elegância que não existia na jovem triste que chegou ontem.
— Não tenho como agradecer tudo o que fez por nós.
Ed sorriu, precisava manter a máscara para seguir na nova fase da jornada.
— E a noite... sim, foi maravilhosa, meu caro boticário! Foi boa até demais.
Ed não precisava dizer mais nada. A mudança não fora apenas visual; fora uma transmutação química. A pureza morreu no feno para que a mulher nascesse na sela.
— À la voyeur! — despediu-se o boticário com um aceno e um sorriso que não chegou aos olhos enquanto eles cruzavam o portão e ganhavam a rua, colocando os cavalos em trote em direção à estrada para Manchester.
Ed ficou analisando aquelas palavras finais. “Estamos te observando?” “Fique atento?”
Seria grave se o jovem boticário tivesse testemunhado o Ressonador Quântico em ação, mas pela despedida dele, talvez tenha só ouvido os ruídos do que acontecia sob as cobertas no estábulo.
Podia ser uma ironia mundana ou uma gíria pejorativa daquela época e que o agente temporal desconhecia, que não fez parte de seus estudos de campo. Dando de ombros, finalizou seus pensamentos e seguiu em frente. Isso não era problema.
A cavalgada era suave e o vazio das ruas traduzia o desinteresse dos residentes em abandonar o calor de suas cobertas. Ao lado de Ed, Livy refletia sobre sua recém-adquirida transmutação: as mãos, agora envoltas em elegantes luvas de couro negro, seguravam as rédeas da égua dócil com uma firmeza que ela desconhecia possuir.
Sob a túnica, camadas grossas de tecido a protegiam do frio, e o capuz da capa ocultava os cabelos castanhos com mechas cor de ouro — um brilho que fora impossível notar enquanto a sujeira das ruas era sua única camuflagem.
Eles finalmente tomaram a direção da via que levava à saída de Rochdale, contudo, ao se aproximarem do portão, um grupo de homens montados emergiu das sombras de uma guarita coberta.
Vultos sombrios em suas montarias, posicionados estrategicamente para barrar a passagem. Ed, de imediato, orientou sua parceira:
— Fique um pouco atrás de mim. Verei o que querem.
Ordenou com autoridade, posicionando-se como um escudo vivo. Livy sussurrou, em um tom elevado o suficiente para que ele ouvisse:
— É o Juiz de Paz... e aquele homem asqueroso da taberna.
O valentão corpulento esbravejou, apontando um dedo trêmulo em direção ao casal:
— É ela, Mister Justice! Prenda antes que fuja! Foi essa ratazana que me roubou na cantina e me fez passar vergonha diante de meus amigos. Exijo que ela seja punida com a morte na forca!
Ed parou o cavalo, avaliando friamente a situação. Naqueles vilarejos, a função policial e de magistratura era exercida por um Justice of the Peace nomeado pela Coroa, auxiliado pelos rústicos parish constables. Ainda faltavam cerca de duas décadas para a instalação do sistema policial moderno no Reino Unido.
O bloqueio consistia em três homens da lei sob a cobertura da guarita, apoiados pelo comerciante gordo e seus três capangas.
Ed sentiu o peso metafísico do momento: era o próprio destino de Livy tentando forçar as engrenagens da história para escrever uma nova variante para o seu fim trágico.
“A morte é como água que escorre; ao encontrar um obstáculo, ela se desvia, infiltra-se, contorna, mas sempre encontra um meio de seguir em frente para alcançar seu objetivo”, filosofou ele em silêncio.
O homem ordenou que um de seus capangas a arrancasse da sela. Quando o primeiro passo do cavalo foi dado, a voz de Ed cortou o nevoeiro, impositiva e gélida:
— Alto lá! Pare aí mesmo! Ninguém vai sequer tocar nela!
Ele interpôs seu cavalo entre os agressores e Livy, segurando firme o arreio do focinho da égua para que o animal não se assustasse.
Era uma barreira absoluta. Ninguém chegaria a ela sem passar por ele — um Alfa que não permitiria que a água do destino encontrasse qualquer fenda para se infiltrar.
O juiz, um homem experiente que já vira de tudo, analisou o cavaleiro à sua frente. A conduta firme era peculiar; a situação exigiria perícia.
Sua avaliação rápida constatou que não estava diante de um simples mensageiro, mas de alguém indisposto a entregar sua carga — fosse ela uma encomenda ou uma protegida.
Via um guerreiro pronto, um exímio espadachim com a confiança no ápice. Sem querer testar essa teoria em uma luta sangrenta, dirigiu-se a Ed de forma firme:
— Mensageiro, não temos nada contra você. Pode seguir seu caminho, mas a mocinha ladra pagará pelos seus crimes! Garanto a ela um julgamento justo.
— Julgamento justo? — Ed rebateu, irredutível.
— Ela já foi condenada por esses homens ao seu lado. Isso me parece mais uma execução sumária e injusta.
Livy seguia cabisbaixa, o rosto oculto pela sombra do capuz, mas atenta ao homem que a defendia. Para ela, Ed era mais que um porto seguro; era uma fortaleza, a única barreira entre seu corpo e a foice que teimava em persegui-la.
O oficial insistiu, a voz carregada pelo visível ultraje de ter sido arrancado de seus aposentos quentes antes do amanhecer para resolver um crime de taverna.
Ele ajeitou as rédeas de sua montaria, empinando o queixo com a arrogância típica de quem detém o poder de vida e morte sobre a plebe:
— Eu represento a Lei e a ordem de Sua Majestade em todo o condado de Lancashire! Forasteiro, insisto que dê as costas e parta imediatamente sem essa criatura, ou será arrastado aos ferros para as masmorras sob a acusação de obstrução da justiça do Rei!.
O tom se elevou e a tensão subiu junto.
— Essa ratazana imunda será pendurada no cadafalso para servir de espetáculo ao povo e exemplo aos ladrões que infestam nossas vielas. Não gaste seu fôlego tentando contornar a forca com palavras vazias, pois minha paciência congelou durante a espera!
A intimidação era clara, mas o homem corpulento, impaciente, virou-se para o juiz e vociferou:
— O que está esperando? Jogue-a no chão e deixe que eu mesmo enforco essa pirralha! Ela ficará pendurada aqui no portão como um aviso!
O gordão, encontrando coragem na hesitação do oficial, forçou seu cavalo na direção de Livy. Com a mão esquerda, Ed sacou sua espada apenas um palmo para fora da bainha. O brilho do aço cintilou na penumbra e seus olhos fixos no agressor fizeram o homem gelar, freando o animal bruscamente:
— Não ouse se aproximar dela ou perderá, literalmente a sua cabeça! Afaste-se! Volte! Para trás... Já!
O homem travou o ímpeto e recuou ante a ordem imperativa.
O tom de sua voz suavizou-se, abandonando o gélido peso metálico e adotando uma modulação polida, típica das cortes — não por submissão, mas por puro respeito estratégico à autoridade que bloqueava o caminho:
— Peço que seja compreensivo e reconsidere o peso de suas decisões neste alvorecer, milorde. Façamos um acordo de cavalheiros que poupará o tempo de vossa senhoria e mais trabalho nas masmorras da Coroa: dou minha palavra que levarei esta jovem para bem longe dos limites da região de Lancashire, garantindo que ela nunca mais pise em Rochdale e até em solo britânico. Deixe-nos passar, ela agora está sob a minha proteção e responsabilidade.
Em um movimento fluido e calculado, Ed pediu e pegou das mãos de Livy a pequena bolsa de moedas e a atirou com precisão cirúrgica na poça de lama, exatamente aos pés do cavalo do comerciante opressor.
O tilintar abafado do metal no lodo congelado foi um convite silencioso. O juiz, contudo, manteve a postura rígida na sela, apegando-se a um argumento frágil cuja verdadeira intenção o agente temporal leu, de imediato, nas entrelinhas da ganância oculta sob a casaca oficial.
— Essa é a prova material do furto. Não posso permitir que apenas esse gesto resolva a situação. Ela roubou e tem que pagar!
O juiz estava sinalizando: o passaporte da liberdade de Livy custaria o exato peso das moedas que agora jaziam na lama — ou talvez um pouco mais.
... Continua...
imagem by: Pinterest.com
ARMADILHA DO TEMPO
Volume Um


O universo Shadow é um mergulho literário que vai além do inimaginável. Boa leitura!
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