Esta história tem roteiro original e foi escrita para os nichos literários Hard Sci-Fi (Ficção Científica fundamentada), Romance Histórico/Épico e Romantasy (Romances maduros de fantasia/ficção). Nela há descrições de violência e conotação sexual. Não contém cenas explícitas, mas é recomendável para público adulto.


Capítulo 13
Conexão francesa
Cedo pela manhã, antes mesmo do sol nascer e os primeiros galos ecoarem suas canções melancólicas ao longe, eles já estavam de pé. Dormiram pouco — na verdade, mal cochilaram, mantendo-se no aconchego um do outro —, mas Livy estava radiante.
Ed decidira que a levaria consigo para protegê-la de qualquer perigo, uma tentativa de evitar que o pior acontecesse. Contudo, no tecido do tempo, existe um paradigma perigoso: “Muitas vezes, tudo o que fazemos para evitar que algo aconteça é justamente o que o faz acontecer”.
Ainda sob o manto do escuro, o boticário os aguardava de pijama sob um grosso casaco, os braços cruzados e um sorriso malicioso no rosto.
— Como passaram a noite? —perguntou, a curiosidade brilhando nos olhos voltados ao viajante.
Ed olhou para sua parceira, que timidamente fitava o chão, protegendo-se do frio com a manta dele sobre o vestido surrado — agora seco e limpo. Ele respondeu, comedido:
— Foi... cheia de descobertas inquietantes. Obrigado mais uma vez pela hospitalidade… e este mingau de aveia está simplesmente divino!
O anfitrião assentiu, com as mãos para trás, observando o céu cinzento e o nevoeiro espesso que abraçava Rochdale.
— Ainda bem que parou de chover… e essa mocinha, comportou-se bem?
— Tão bem que vou levá-la comigo! — exclamou Ed.
Arqueando as sobrancelhas em espanto, o boticário soltou uma gargalhada:
— Olha! Mas que bela surpresa! “Para um cavalo cansado, nada como uma sela nova”! Hahahahaha!!!
Concordando com um sorriso, Ed foi direto ao ponto:
— E por falar nisso… vou precisar de um cavalo para ela. Poderia me vender um dos seus?
— Mas é claro! Vamos ver aqui... Acompanhem-me! Smith… traga-me dois rushlights. Vamos acordar os cavalos.
Ed e Livy o seguiram até a cocheira.
— Tenho esta velha égua que perdeu a função; deixou de parir e ia me livrar dela... Pode levá-la. É um presente e me fará um favor; ela me serviu bem, deu-me uma geração inteira de bons garanhões e seria um sacrilégio sacrificá-la.
— É muita gentileza sua. Onde posso adquirir uma sela?
— Smith! Vá lá em cima! Procure no armário aquela sela que era da minha sobrinha… — Pouco depois, o serviçal trouxe uma sela desbotada pela poeira.
— Exato! Essa mesma! Traga-a aqui. Está empoeirada, mas nada que um pano úmido não resolva. Mary, limpe-a! Sally, acompanhe a jovem e ajude-a a escolher algumas roupas que minha sobrinha deixou. Ela tinha a mesma estrutura corporal, magrinha igual à sua acompanhante. Vamos melhorar o visual dela!
As duas serviçais se entreolharam com sorrisos cínicos. A que acompanhou Livy aproveitou a oportunidade para tentar arrancar detalhes da noite, mas sem sucesso:
— E aí, garota… me fala! Você é tinhosa, hein? Fisgou um homão daqueles só pra você… podia ter nos chamado, ali tinha carne pra alegrar um harém! Vai! Fala logo, pequena… como deu conta dele sozinha? Misericórdia, quando vi tudo aquilo na minha frente quase não resisti e caí de boca… e você não pediu arrego...!
Livy estava mortificada. O silêncio dela não era apenas timidez; era um escudo. Criada pela crueza das ruas, onde cada palavra dita era uma fraqueza exposta, ela não sabia como administrar a tentativa de invasão daquela mulher.
Para quem nunca tivera uma conversa real, ser o centro das atenções era um paradoxo sufocante: ela fora reprogramada pelo prazer de Ed, mas sua interface social ainda era um sistema fechado, um cofre que só ele possuía a chave.
Ela escolheu o silêncio como quem protege um tesouro que as palavras daquela serva apenas profanaria. Seguiu calada, guiando-se por seus próprios instintos de sobrevivência.
Ignorando os vestidos volumosos e sufocantes das damas da sociedade georgiana, Livy vasculhou o baú em busca de trajes práticos para cavalgar.
Encontrou ali o legado de rebeldia da sobrinha do boticário, uma jovem da elite que desafiava a etiqueta da época com roupas de couro coladas ao corpo, mas que deixou aquele vestuário atrevido para trás quando fora obrigada a se casar.
Livy tomou para si aquelas peças ousadas, ajustando as luvas, a capa com capuz e as botas de couro fino como uma armadura feita sob medida para o seu novo destino.
No estábulo, Ed colocava os arreios na velha égua. O animal estava em ótima forma física, apenas infértil pela idade. O cavaleiro aproximou-se e falou baixinho ao pé do ouvido do animal, acariciando seu focinho com a nobreza de quem reconhece um igual:
— "Você merece um final digno, diferente de ser espetada por uma adaga no pescoço para sangrar até a morte… Conduza com delicadeza minha donzela, que lhe garanto um pasto verde para viver até o fim natural de sua vida. Vamos ter grandes aventuras antes desse dia chegar!"
Ao fazer essa promessa à égua, Ed revelava a extensão de sua própria altivez. Para um viajante do tempo, a vida — seja ela humana ou animal — não era medida pela utilidade presente, mas pela dignidade da jornada.
Ao garantir o pasto à montaria inútil, ele afirmava seu caráter nobre: EdiNuñez não descartava o que lhe era fiel.
Sua palavra era o seu vínculo, e o animal, em sua inteligência irracional, pareceu entender o peso daquele pacto, endireitando a postura como se ganhasse um novo vigor sob os arreios e a sela, marchando rumo ao desconhecido.
Quando Livy surgiu diante de Ed trajando suas novas vestes de amazona, ela metaforicamente brilhava como um raio de sol rompendo a névoa da madrugada.
Os trajes, uma escolha audaciosa e quase escandalosa para os padrões da época, consistiam em calças de couro negro masculinas, perfeitamente ajustadas às suas pernas finas, terminando em botas de cano alto que lhe conferiam uma postura firme, amarradas por uma infinidade de voltas nos cadarços, algo quase militar.
Sobre o tronco, um corpete estruturado de couro escuro, com amarrações frontais e detalhes em metal envelhecido, realçava sua cintura e a firmeza de seus seios, enquanto ombreiras discretas davam um ar de autoridade ao seu porte franzino.
Uma capa pesada, de um cinza profundo, envolvia seus ombros, culminando em um capuz generoso que ora escondia, ora revelava seu rosto de traços exóticos. Ela não era mais a pedinte maltrapilha; era uma guerreira das sombras, uma visão de elegância rústica que parecia ter saído de uma lenda épica.
Os olhos de Ed a consumiam. Como uma simples mudança de vestimenta é capaz de alterar até a alma de uma pessoa?
Ele desviou o olhar com esforço, dirigindo-se ao generoso senhor da medicina. Estendeu a mão, apertando-a em uma despedida firme:
— O senhor é uma pessoa muito boa, amigo boticário, digno do posto que ocupa. Levarei ótimas referências suas e as excelentes lembranças de minha estada em sua estalagem. Mesmo sendo um celeiro, serviu com perfeição aos seus objetivos.
— Faço ideia de que deve ter aproveitado muito mesmo — o homem insistia na ironia.
Mudando subitamente sua postura. Ele baixou o tom de voz e conduziu Ed alguns passos para longe dos serviçais e de Livy, garantindo que ninguém os ouvisse.
— Sou grato pelos medicamentos que trouxe como disfarce — iniciou o anfitrião,
— É muito difícil encontrar mensageiros de confiança nestes tempos sombrios. Espero revê-lo em breve, quem sabe para brindar à Lua dos Treze ou ao dia em que a Águia romper os pilares para guiar a nação a um novo tempo.
Ed fora alertado de que isso poderia acontecer.
A senha política estava lançada; o boticário era bem mais que um simpatizante, era agente da causa napoleônica em solo britânico. Um traidor, um lobo se fingindo de cordeiro. Ele entrou no jogo, tinha que jogar e respondeu no mesmo tom, firme e comedido:
— Vive la République! Vive!... Vive!
— Bon voyage!
... Continua...
imagem by: Pinterest.com
ARMADILHA DO TEMPO
Volume Um


O universo Shadow é um mergulho literário que vai além do inimaginável. Boa leitura!
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