Esta história tem roteiro original e foi escrita para os nichos literários Hard Sci-Fi (Ficção Científica fundamentada), Romance Histórico/Épico e Romantasy (Romances maduros de fantasia/ficção). Nela há descrições de violência e conotação sexual. Não contém cenas explícitas, mas é recomendável para público adulto.


Capítulo 09
O peso da verdade
Esse flagrante não estava previsto no roteiro meticulosamente trabalhado pelo agente temporal; um descuido que poderia custar caro demais.
A jovem posicionou-se com agilidade à sua frente, prensando-o metaforicamente contra a parede com a força de seu olhar:
— Com quem falava?… E que história é essa, que eu só tenho… quarenta e oito horas de vida…??!!!
— Não!… Err… Bem!… Eu… Não te ensinaram que é feio ouvir a conversa dos outros?
Ed tentava desesperadamente reverter a situação, as engrenagens de sua mente girando em busca de uma saída lógica.
— Você estava aí escondida desde quando?
Ela nem sequer ouvia as perguntas dele; só lhe interessava desvendar o enigma daquela conversa impossível.
— Responda, por favor!… Eu vou morrer em três dias? Como sabe disso? E como conversava com alguém por este… O que é isso em suas mãos?
Agora ele percebia, tardiamente, que quando Aletheia o questionou sobre a segunda fonte termal, ela havia detectado a presença de Livy justamente por ela ter se afastado do calor do fogo, criando um contraste térmico nítido.
Ela ouvira o que não devia; soubera de segredos que nenhum habitante daquela era deveria conhecer, especialmente a verdade sobre a existência dele.
E agora? Como consertar essa cagada? Ele se amaldiçoava internamente por ter permitido que seus instintos carnais nublassem sua cautela operacional.
A sentença era clara, irrefutável: ela morreria em quarenta e oito horas. Saber o momento exato em que a vida se esvairia era um conhecimento proibido.
Se ela contasse a alguém, não acreditariam; o relato desencadearia uma série de fatores que invariavelmente levaria ou acelerariam o seu fim.
Naquela Inglaterra de transição industrial, onde a superstição ainda duelava contra a razão e o medo, as leis eram implacáveis, o destino de quem perdia a sanidade era cruel.
Ed imaginava a cena: ela, apavorada, contaria a alguém na rua sobre vozes vindas do futuro e aparelhos luminosos. Seria imediatamente denunciada como louca ou charlatã.
Acabaria acorrentada nas masmorras úmidas de um asilo ou manicômio infame local, sendo dopada, torturada e lobotomizada primitivamente pela medicina dos médicos da época, o que causaria a morte dela em três até dias por maus-tratos ou o próprio desespero roubariam o último sopro de sua vida.
Fim de Jogo.
O que fazer? Ed estava de mãos atadas.
Se contasse tudo, ela acreditaria nele, mas manteria o segredo?
Eliminá-la só confirmaria o seu destino trágico.
Sem alternativas viáveis de resolução sem lhe causar um trauma maior, ele pegou as mãos dela, que tremiam violentamente — e não era mais por causa do frio.
Era uma tentativa vã de tranquilizá-la e organizar a bagunça feita por sua imprudência ao acreditar que ela dormia.
A ratinha era mestre na dissimulação, enganando-o com perfeição. Suspirando profundamente, ele deu de ombros e falou:
— Venha aqui comigo. Me escute. Vou te contar alguns segredos, está bem? Mas você terá que abrir sua mente. Posso provar tudo o que vou te relatar, mas me prometa uma única coisa: terá que guardar segredo absoluto. Você não pode contar isso para ninguém! Você consegue?
Ela não assentiu. Estava em choque, o rosto pálido sob a luz das brasas.
Ele sabia que havia se metido em uma enrascada sem precedentes.
Caminharam juntos, ele segurando a mão dela com firmeza. Voltaram para a cama improvisada e ele a ajudou a sentar-se, acomodando-se bem próximo a ela enquanto se embrulhavam na mesma coberta.
Ela o olhava com olhos rasos d’água, um semblante suplicante por respostas para a visão surreal que tivera. Ed buscava em sua vasta experiência encontrar um tom apaziguador, mas como se explica a alguém que acaba de descobrir o prazo de validade da própria alma?
É possível relatar a uma flor que ela murchará antes do próximo orvalho, sem tirar dela a vontade de ainda buscar o sol?
O drama que agora habitava o peito de Livy era a anomalia definitiva: o conhecimento do fim da estrada antes de sequer dar um passo decisivo nela. Para ela, o tempo deixara de ser uma linha contínua para se tornar uma ampulheta quebrada, onde cada grão de areia que se esvaia, tinha o peso de uma vida inteira não vivida.
Ed olhava para aquela criatura tão pequena e frágil, suplicante por vida, ele agora percebia que, ao tentar protegê-la do frio, acabou por condená-la ao gelo eterno da expectativa da morte.
Ali, sobre o feno, ele enfrentava seu maior teste: a vida pode ser um consolo quando a verdade é uma sentença de morte?
Ed entregou nas mãos dela o objeto metálico.
Tinha painéis e botões táteis; era frio, pesado e feito de ligas metálicas com predominância do cobre. Parecia vibrar levemente ao toque com a pele dela, como se uma energia estática invisível tentasse decifrar seu DNA.
Definitivamente, aquilo não pertencia àquela escala temporal.
Livy sentiu o objeto escorregar por um instante, como se tentasse escapar dela, mas, assustada, segurou-o com firmeza.
— Livy, preste atenção! O que vou te falar pode ser a razão pela qual perderá sua vida. Eu não sou deste mundo...
Essa fala deu a impressão de que ele era um espectro, uma alma do além.
— Espere! Deixe-me reformular, ou parecerá que sou um fantasma. Não estou morto!... O que quero dizer é que não pertenço a esta época. Vim do futuro. De um tempo que ainda vai acontecer.
Ela ouvia atônita, segurando o aparelho como prova de uma tecnologia inexistente.
— Como sabe que vou morrer? Como vai ser minha morte?
Perguntou baixinho, cabisbaixa, apavorada com a resposta.
Ed buscava as palavras no rosto dela, como se o desespero da jovem pudesse iluminar sua própria mente.
— Não sei como será, nem a hora exata. Não há registros das pessoas comuns no futuro. Se houve, se perderam…
— Mas como tem certeza? Não pode ter se enganado?
Ela estava angustiada. Era algo inacreditável, mas o aparelho que há pouco brilhava com a voz de Aletheia nas mãos dele não deixava dúvidas. Ele novamente colocou a mão na bolsa e, desta vez, puxou a viseira semitransparente.
— Este é o Cronovítreo, um visor termal que me auxilia nas minhas viagens. Ele tem múltiplas funções, como mostrar as frequências das pessoas: as boas, de quem posso me aproximar, e as más, de quem devo manter distância. Veja você mesma. Deixe-me colocá-lo em você. Não tenha medo... O que está vendo?
Com o aparelho de tecnologia futurista no rosto, a mente de Livy iluminou-se com uma autêntica surpresa.
... Continua...
imagem by: Pinterest.com
ARMADILHA DO TEMPO
Volume Um


O universo Shadow é um mergulho literário que vai além do inimaginável. Boa leitura!
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