Esta história tem roteiro original e foi escrita para os nichos literários Hard Sci-Fi (Ficção Científica fundamentada), Romance Histórico/Épico e Romantasy (Romances maduros de fantasia/ficção). Nela há descrições de violência e conotação sexual. Não contém cenas explícitas, mas é recomendável para público adulto.


07- Armadilha do coração
Após consumirem toda a sopa de carne e legumes, ambos se prepararam para recolher-se. Ed teria que sair logo cedo; o descanso era necessário para a intensa viagem até a próxima parada, Manchester, distante um dia de cavalgada.
A garota timidamente deitou-se próximo a ele, esperando o momento inevitável.
— Venha! Você está batendo o queixo de frio. Vou te aquecer com meu corpo. Encoste-se em mim!
Ed estava pronto para finalizar o jantar; a sopa, embora estivesse deliciosa, era apenas a “entrada” para o “prato principal”.
— Eu... estou com medo. Eu nunca...
Livy hesitou. Uma reação inexplicável vindo de alguém que, aos olhos do guerreiro, sobrevivia com o corpo nas ruelas de Rochdale. Ela tentava elevar seu valor e cobrar mais caro, ou havia outra razão escondida?
Ed sorriu, e sua fala foi de puro desapontamento. Ele não era de forçar ninguém a nada.
— Só falta você querer me aplicar o golpe da "Virgem Imaculada"!
Ela apenas olhou para ele, nada falou, não precisava, sua cabeça baixa e as mãos enlaçadas como se em prece falavam por si, deixando transparecer seu medo e, ao mesmo tempo, uma grande ansiedade.
— Espera... é sério? Você nunca...? Nunca mesmo?!
— Juro que não! Já tentaram me molestar muitas vezes, mas sempre consegui escapar. Me desculpe…
Essa foi uma confissão “broxante”. Ele tomou sua decisão: aquele momento era inadequado para tal ato.
— Venha! Não tenha medo. Não vou te tocar, apenas te aquecer. Juro!
O olhar dele mudou. A luxúria cedeu a algo mais denso, mais paternal e protetor. Ela retrucou de pronto, surpreendendo-o:
— Não! Eu... eu quero! Eu desejo isso! Esperava alguém que valesse a pena... acho que não terei ninguém mais gentil ou melhor que o senhor!
O jogo virou a favor dela e ela desfez-se das cartas; então, a sorte ficou nas mãos do destino.
— Sossegue! Eu vou te respeitar... Vou tentar resistir. Confesso que estava louco para… mas não posso, não devo fazer isso com você.
— Mas... pode sim! Eu deixo… eu quero!
Ed suspirou, sentindo o peso daquela sentença.
— Procure alguém que possa te proteger, viver com você, te tirar das ruas... Sou um viajante, não tenho como assumir tal responsabilidade..
Ela insistiu, segurando firme em seu braço, implorando:
— O senhor não entende... ninguém me enxerga, nem me dá valor. Milorde foi o único que me viu de verdade… que cuidou de mim… Por favor!
Ela exalava vulnerabilidade.
— Você me deixa em uma situação complicada! Sou um homem carnal, não há santidade em mim...
Ele tentou ponderar; o certo era não se envolver, não deixar essa marca nela. Então, sentenciou:
— Minha jovem, você é linda. Garanto-te que será difícil resistir ao desejo; estou em uma batalha interna aqui...
Soltou um suspiro longo.
— Vou tentar me segurar, mas, se eu não conseguir, te prometo que serei respeitoso e carinhoso. Sua primeira vez merecia um lugar melhor que o feno como colchão.
— Não é o lugar, mas a pessoa que define se valeu a pena ou não!
Ela demonstrava ter mais sabedoria do que aparentava.
Livy era uma donzela querendo ser mulher, sem noção dos conflitos existenciais que passavam pela cabeça dele. Ed sabia que a “marca” seria permanente, grudada na mente e na alma. Ela o escolhera para entregar seu único tesouro.
Mas por que ele reluta tanto, se cedo ou tarde, alguém irá inevitavelmente romper esse lacre?
Ela se deitou e colou ao abraço dele timidamente. Um calor a sufocava. Talvez fosse a manta, ou seria a tensão que a fervia por dentro? Enquanto essa anomalia os envolvia, seu cheiro de macho fazia Livy sentir o coração martelar contra o peito.
Para ele, era uma batalha ética; para ela, era uma questão de existência. Nas ruas, seu corpo era alvo de carniceiros; com Ed, sentia que ele era seu templo. Ela não queria apenas a proteção do guerreiro, queria a marca do homem.
Queria que, quando ele partisse para Manchester, algo dele ficasse cravado nela, uma prova de que, por uma noite, ela deixou de ser um fantasma de Rochdale, para ser a rainha de um nobre de Castela.
Ela fechou os olhos, sentindo a tensão muscular dele contra seu corpo, e rezou silenciosamente para que a resistência dele falhasse, pois sua pureza já clamava para ser quebrada e possuída por mãos que valorizavam o que conquistavam.
Livy já não mais tremia de frio; agora, temia a solidão das ruas que inevitavelmente a envolveria na noite seguinte. O silêncio no estábulo era a calma antes da tempestade que ela ansiava que acontecesse.
Aos poucos, o cansaço a vencia. A sensação de segurança era um bálsamo que a entorpecia, um alívio maior que o calor das chamas ou a ansiedade de ter aquele corpo másculo que a acolhia — quieto, impassível e colado ao seu.
Tudo estava de ponta-cabeça. Antes, quando se ofereceu como prêmio ao estranho em frente à taverna, seu único interesse era simplesmente roubá-lo — uma estratégia infalível até aquele momento. Porém, ao receber aquela Guiné de ouro, percebeu que ele era diferente justamente por não pedir nada em troca.
Ela se deixou envolver. A rata caíra na ratoeira que ela mesma armou: a "armadilha do coração".
O seu plano meticuloso de sedução fora desarmado no instante em que o cavaleiro a colocara sentada sobre sua "espada" durante a cavalgada, mas o paradigma se rompeu definitivamente quando ele rechaçou o serviçal na porta da botica.
O engodo se desfez.
A estratégia de aproximação, furto e desaparecimento rápido — preservando sua pureza carnal — sempre dera certo, mas por que agora ela sequer cogitava fugir? Sua única preocupação era saber se ele conseguiria resistir e não tocá-la; no íntimo, ela ansiava que ele quebrasse a própria palavra, roubando seu único e precioso tesouro.
Ed, contudo, aguardou pacientemente que ela caísse em um sono pesado.
Enquanto vigiava o repouso da jovem, Ed relembrava os eventos que o levaram até ali, repassando cada passo dado desde que tomara o lugar do verdadeiro mensageiro.
Ele havia obtido a informação de que um viajante solitário se dirigia à vila de Rochdale para a entrega de uma remessa de ervas e unguentos raros.
Mas aquilo era apenas um ardil.
O verdadeiro propósito do emissário era receber, de forma velada, um documento das mãos de um receptador para entregá-lo em Manchester.
Tal documento era, na verdade, um manual de instruções para o funcionamento de um artefato que, se chegasse às mãos erradas, seria o catalisador de catástrofes capazes de antecipar as consequências da Revolução Francesa.
... Continua...
imagem by: Pinterest.com
ARMADILHA DO TEMPO
Volume Um


O universo Shadow é um mergulho literário que vai além do inimaginável. Boa leitura!
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