Esta história tem roteiro original e foi escrita para os nichos literários Hard Sci-Fi (Ficção Científica fundamentada), Romance Histórico/Épico e Romantasy (Romances maduros de fantasia/ficção). Nela há descrições de violência e conotação sexual. Não contém cenas explícitas, mas é recomendável para público adulto.


02- O herdeiro do futuro
Obrigado por uma força atávica e inevitável de sobrevivência, Santiago cruzou com seus pais o oceano, de volta ao solo de seus antepassados. Não para o ócio, mas para cumprir um ritual inegociável imposto pelo continuísmo: consolidar uma união de sangue com Eleonora D’Agneli, uma herdeira de linhagem real da Casa de Calábria, na Itália.
Era um arranjo de poder que ainda persistia, como uma lei silenciosa e absoluta entre as casas da alta nobreza.
Antes de regressar à América em 2032 para iniciar à sua trajetória profissional, Santiago mergulhou em uma lua de mel que era, na verdade, um rito de descoberta.
Era preciso decifrar Eleonora, a mulher que agora carregava seu nome, e ela conhecê-lo como marido, pois ambos haviam se visto pela primeira vez, literalmente no altar.
Mas o sangue latino não se dilui pela distância, nem perde seu furor por ter brotado em solo americano; ele permanece sendo uma bússola guiada por emoções cruas, pelo calor de quem é herdeiro de uma paixão incurável pela vida. É a intensidade que transborda no gesto largo das mãos italianas e no olhar profundo do povo espanhol.
Trata-se de uma linhagem que desconhece o meio-termo: ou se ama com o fogo que consome, ou se luta com a alma que não recua. É o sangue dos poetas que transformam a dor em arte, e dos navegantes que redesenharam o mapa do mundo com o fio da espada e a audácia da fé.
Ao atravessar o Atlântico para iniciar a nova vida, já estavam apaixonados um pelo outro, mas o destino preparava o golpe final.
Em menos de um ano, em 2033, o mundo acabou...
Não em uma explosão de fogo, mas no colapso silencioso e absoluto das estruturas da civilização.
O “Marco Zero” catastrófico não foi apenas um evento global; foi o carrasco do clã Nuñez. No exato instante do colapso, o marcapasso que sustentava o coração de Mateo parou.
E junto com ele, também milhões de outras vidas se perderam igualmente de forma abrupta, todos por inércia dos aparelhos que lhes sustentavam a vida, seja em casa, nas ruas ou nos hospitais.
Isabella, incapaz de processar um mundo sem o seu grande amor, partiu poucos meses depois; morreu de saudade e desgosto, um mal antigo que nem a medicina do futuro pôde curar, ou sequer entender.
Enquanto o mundo ruía na insanidade dos conflitos urbanos, Santiago engoliu o luto e dedicou-se a recuperar o que se perdeu.
Não havia como trazer seus pais de volta, porém, jurou que construiria um novo recomeço para ele e Eleonora a partir dos fios e cabos dispersos no seu laboratório particular no Rancho Nevado — sua residência afastada dos conflitos existenciais que destruíam um mundo que nada tinha de civilizado.
Decidiu se dedicar integralmente a desenvolver uma nova tecnologia em segredo, substituindo o obsoleto sistema (1+0) binário.
O novo projeto, baseado no elemento Gálio, projetava uma nova equação: o (1+1=1), ou seja, o futuro operando no “Protocolo de Fusão”.
Nele, o “Zero” — a ausência / o ‘nada’ — é anulado.
A informação só é validada quando spins de elétrons e fótons se fundem, gerando uma unidade absoluta e inquebrável. É a matemática do amor aplicada à escala global para ligar dois pontos distintos, ’unendosi in uno’.
Uma ideia que se iluminou ainda na Academia; uma revolução que prometia subverter as leis da física e da comunicação. O laboratório, oculto sob as fundações de pedra do rancho, tornou-se o berço dessa nova era.
Santiago passava noites em claro, inicialmente buscando recuperar um velho gerador de energia movido a diesel, iluminado apenas pelo brilho tênue de um lampião a querosene.
Sem energia elétrica, não havia como reativar seus projetos armazenados nos discos rígidos de seus computadores que hibernavam como bactérias no permafrost, no aguardo de serem trazidos à vida. Sua mente armazenava o que apenas suas mãos podiam realizar.
Ele não buscava trazer de volta o que o “Marco Zero” quebrou; ele queria resgatar algo que a humanidade havia perdido nas cinzas: a capacidade de transcender a própria presença física no espaço.
Cada falha, cada curto-circuito recuperado no protótipo, era um tributo silencioso à memória de seus pais, Mateo e Isabella — uma tentativa desesperada de provar que o gênio humano poderia sobreviver ao colapso das máquinas.
O rancho, sua herança material antes da catástrofe, era uma fazenda que industrializava a produção de leite bovino e seus derivados, com vacas leiteiras cuidadas com zelo extremo através de máquinas modernas que processavam de forma automática os lácteos.
A mão de obra humana servia apenas para um controle mínimo de supervisão em cada setor. Obrigatoriamente o processo todo parou; manter-se isolado era questão de sobrevivência.
O silêncio das máquinas de ordenha, outrora ritmado e produtivo, foi substituído pelo ruído intermitente dos grilos e de outros insetos que, junto das aranhas, se apossaram dos maquinários, agora protegidos, cobertos por lonas plásticas.
Do lado externo, restava apenas o som do vento soprando nas pastagens abandonadas e o mugido baixo dos poucos animais que agora dependiam do esforço braçal de Santiago e de sua jovem esposa Eleonora.
O luxo da automação tornara-se uma relíquia empoeirada.
Eles tiveram que aprender a rusticidade da terra para manter seus estômagos cheios, enquanto sua mente operava no limite do impossível.
Foi nesse isolamento forçado, entre o cheiro do feno úmido e a complexidade dos circuitos integrados, que Santiago teceu a rede de proteção que manteria sua família invisível aos olhos de uma nova governança que se erguia das ruínas.
Após nove anos de incertezas e angústias, já sob um novo regime estatal, o nosso herói EdiNuñez nasceu, em 2041.
Mas... como assim ele nasceu em 2041? O que faz ele em 1798?
Calma!
Eu, o Edinelson Nunes narrador, de propósito fiz parecer que cometia um erro de continuísmo em datas, mas levei você, leitor, exatamente onde queria deixar. No ponto onde a matéria se dobra e nada é o que parece ser.
O tempo nesta história não é uma reta linear, mas um tecido que pode ser vergado no momento certo para baixo, jamais para cima, onde ele corre diferente — um segredo costurado e calibrado por Santiago Nuñez.
Um legado bem mais profundo que a linhagem de sangue que corre nas veias do cavaleiro que agora chega ao seu destino — algo que Santiago sacrificou com sua vida e a de sua esposa para proteger e que jamais poderá cair em mãos erradas.
... Continua...
imagem by: Pinterest.com
ARMADILHA DO TEMPO
Volume Um


O universo Shadow é um mergulho literário que vai além do inimaginável. Boa leitura!
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