A INTELIGÊNCIA AMANTE: ONDE O PASSADO ENCONTRA O FUTURO

Esta história tem roteiro original e foi escrita para os nichos literários Hard Sci-Fi (Ficção Científica fundamentada), Romance Histórico/Épico e Romantasy (Romances maduros de fantasia/ficção). Nela há descrições de violência e conotação sexual. Não contém cenas explícitas, mas é recomendável para público adulto.

01- Lama e nobreza

O ano é 1798. Rochdale, Inglaterra.

A névoa não apenas encobria a vila; ela a sufocava, transportando um hálito espesso de carvão queimado e o odor acre de uma nação que apodrecia de dentro para fora. Ainda não era noite, mas o crepúsculo em Rochdale nascia morto, sepultado sob nuvens de chumbo que vertiam uma chuva fina e intermitente, uma agulha fria que insistia em castigar a pele.

As ruas de terra batida haviam desistido de sua forma, transformando-se em um estuário de lama viscosa e escura, onde cada passo era uma luta contra a sucção do solo. Nem os cães vadios, acostumados à miséria, ousavam abandonar seus esconderijos sob as carroças quebradas, sequer para latir.

Nesse cenário de desolação, um cavaleiro solitário avançava. O animal, exausto, patinava no lodo enquanto o homem mantinha um pano cobrindo suas narinas — uma barreira inútil contra a mistura pútrida de fumaça de chaminé, suor animal e o fedor cadavérico dos dejetos industriais que o rio Roch carregava dos cortumes próximos.

Ele era uma sombra movendo-se em direção à única taverna que já mantinha uma lanterna oscilante acesa, um farol de malte e segredos em um mundo onde a luz era um luxo esquecido.

O isolamento de Rochdale era um disfarce perfeito para a ferida política aberta. Enquanto a Europa se retorcia sob as botas de Napoleão Bonaparte, que então estendia suas garras sobre as areias do Egito, a Grã-Bretanha havia se tornado um imenso ninho de espiões e traidores.


O governo via na construção dos canais não apenas uma obra de engenharia, mas a própria espinha dorsal da sobrevivência britânica. Esses canais eram as veias por onde correria o carvão e o ferro para alimentar as fábricas de guerra; sem eles, a economia pararia.


Por isso, cada estalagem tornara-se um centro de conluios e cada viela escura abrigava olhos franceses interessados em sabotar essa infraestrutura vital para paralisar o ímpeto da Revolução Industrial inglesa.

Napoleão, o "General Corso", estava possuído por uma obsessão que transcendia mapas e territórios: ele ambicionava obter para si a linhagem dos Césares.

Seus olhos não miravam apenas o Nilo, mas o que se ocultava sob as areias. Ele não precisava ter poderes metafísicos para pressentir que o Delta guardava chaves para segredos antigos — segredos que nas escavações do ano seguinte revelariam a Pedra de Roseta, um mapa linguístico para relíquias de poder absoluto.

Para Bonaparte, a França não seria apenas um país, mas o herdeiro legítimo do domínio eterno dos faraós e imperadores romanos.

Enquanto o general francês colecionava vitórias fulminantes nas planícies da Itália, humilhando os austríacos e redesenhando o mapa mediterrâneo, a Bretanha sangrava por todos os poros.


O Rei George III, já assombrado por devaneios da própria mente, via sua monarquia constitucional ser corroída por lutas partidárias internas.

A vitória de Nelson na Batalha do Nilo em Abukir trouxera um respiro, mas o custo era asfixiante. Manter o bloqueio naval e sufocar a sangrenta revolta na Irlanda exauria o ouro e homens.

O país era uma fratura exposta.


A crise financeira de 1797, que forçou o Banco da Inglaterra a suspender pagamentos em espécie, criou uma ferida pútrida na sociedade.


Das periferias de Londres aos vilarejos mais longínquos, a fome era uma presença física, uma dor constante que roía as entranhas dos operários. Os pobres viam seus filhos serem levados para morrer em terras distantes, apenas para que seus corpos fossem adubo para o expansionismo de outros.

Enquanto isso, a nobreza permanecia intocada em seus salões dourados, protegida pela névoa do Romantismo emergente que tentava poetizar a miséria à sua volta. A maldade dos ricos era silenciosa e refinada, um contraste obsceno com o cheiro de suor, urina e desespero que escorria na lama de onde os desvalidos buscavam abrigo.

A virada para o século XIX não acenava com esperança, mas com a ameaça de um eclipse total. Se o exército francês, fortalecido pelos saques na Itália e pelo misticismo egípcio, decidisse atravessar o canal, a Grã-Bretanha deixaria de ser uma potência para se tornar uma nota de rodapé na história de Napoleão.

A Inglaterra estava por um fio de seda, que se rompido, traria ainda mais caos e desespero. Ninguém sabia, mas a única esperança desse cenário sombrio não se concretizar, estava no cavalo que se aproximava de seu destino.

É neste tabuleiro de sombras espessas e conspirações letais que emerge a figura de EdiNuñez, ou simplesmente Ed para os amigos.

Ele era um homem de muitas faces e pátrias, moldando sua identidade conforme a conveniência do terreno que pisava, mas aqui, sob o céu carregado de Rochdale, ele reivindicava sua herança espanhola. Não era um disfarce completo, mas uma verdade conveniente.

Seu sangue carregava a ascendência direta da era de Carlos I — o imperador cuja mão de ferro unificou os reinos de Castela e Aragão em 1516, forjando o que o mundo passaria a temer como o Império Espanhol.

O sobrenome Nuñez não era apenas um registro, mas um eco persistente de um ramo dissidente da nobreza que, séculos antes, tomara a decisão pragmática de jurar lealdade absoluta a Castela, rompendo com o misticismo libertador e perigoso dos Nunos, seus primos em solo português.

Ed era o último remanescente de uma árvore genealógica cujas raízes estavam cravadas em glórias imperiais, mas seus frutos foram amadurecidos por uma tragédia tecnológica que nenhum historiador daquela época seria capaz de documentar ou compreender.

No entanto, por trás da herança castelhana, Ed era, por nascimento e direito, um cidadão do Novo Mundo.

Suas raízes americanas foram substituídas e plantadas por seus avós, Mateo Nuñez e Isabella Corderö, que em 2010 — ainda com o frescor do matrimônio na pele — atravessaram o Atlântico fugindo de uma Europa que já exalava os primeiros sinais de uma exaustão sistêmica e irreversível.

Era algo que nem a ciência, nem a história conseguiam explicar: um eterno gosto pela desgraça, pelo fogo e pelo sangue; um impulso obscuro de autodestruição que se manifestava através de guerras cíclicas impiedosas.

O único fruto dessa migração, Santiago Nuñez, nasceu em 2011, carregando um intelecto que desafiava as métricas comuns.

Aos dezessete anos, em 2028, Santiago não apenas ingressou no prestigioso MIT (Massachusetts Institute of Technology), mas devorou seus currículos com uma voracidade que o levou à graduação em Tecnologia da Informação aos vinte e um anos.

ARMADILHA DO TEMPO

Volume Um

O universo Shadow é um mergulho literário que vai além do inimaginável. Boa leitura!

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